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	<title> Fracci&#243;n Trotskista Cuarta Internacional </title>
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		<title>Uma pol&#234;mica com Francisco de Oliveira</title>
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		<dc:date>2004-09-01T00:00:00Z</dc:date>
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		<dc:creator>Edison Salles, Ronaldo Fonseca</dc:creator>


		<dc:subject>Am&#233;rica Latina</dc:subject>
		<dc:subject>Brasil</dc:subject>

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&lt;p&gt;Francisco de Oliveira &#233; um intelectual amplamente reconhecido tanto nos meios acad&#234;micos quanto na esquerda brasileira. Depois de longos anos de colabora&#231;&#227;o te&#243;rica e pol&#237;tica com o PT, atrav&#233;s do Centro de Estudos dos Direitos de Cidadania da USP, rompeu com o partido em fins de 2003. Nos &#250;ltimos meses, tem animado junto a outros intelectuais o projeto do PSOL. Queremos neste artigo iniciar uma cr&#237;tica a seu ensaio rec&#233;m publicado &#8220;O Ornitorrinco&#8221; (2003), e indicar, por um lado, os la&#231;os (&#8230;)&lt;/p&gt;


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&lt;a href="https://www.estrategiainternacional.org/Brasil-101" rel="tag"&gt;Brasil&lt;/a&gt;

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 <content:encoded>&lt;div class='rss_texte'&gt;&lt;p&gt;Francisco de Oliveira &#233; um intelectual amplamente reconhecido tanto nos meios acad&#234;micos quanto na esquerda brasileira. Depois de longos anos de colabora&#231;&#227;o te&#243;rica e pol&#237;tica com o PT, atrav&#233;s do Centro de Estudos dos Direitos de Cidadania da USP, rompeu com o partido em fins de 2003. Nos &#250;ltimos meses, tem animado junto a outros intelectuais o projeto do PSOL. Queremos neste artigo iniciar uma cr&#237;tica a seu ensaio rec&#233;m publicado &#8220;O Ornitorrinco&#8221; (2003), e indicar, por um lado, os la&#231;os te&#243;ricos e pol&#237;ticos que o ligam &#227; sua Cr&#237;tica &#227; Raz&#227;o Dualista, obra escrita em 1972, e, por outro, os pontos em que se distancia da an&#225;lise contida naquele que j&#225; &#233; um li-vro cl&#225;ssico no Brasil.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Introdu&#231;&#227;o&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A hist&#243;ria recente do Brasil fez ressurgir quest&#245;es fundamentais, na pol&#237;tica, na economia e no &#226;mbito social. Quando o Partido dos Trabalhadores venceu a elei&#231;&#227;o de 2002, parte significativa da opini&#227;o p&#250;blica, do mundo acad&#234;mico-intelectual e de setores do movimento de massas adquiriu a esperan&#231;a, solapada historicamente pelo dito &#8220;campo conservador&#8221;, isto &#233;, pela classe dominante, de conquistar aquilo que o PT lhes prometeu ao longo de duas d&#233;cadas de atividade pol&#237;tica ostensiva: melhores condi&#231;&#245;es de vida, distribui&#231;&#227;o de renda, participa&#231;&#227;o na pol&#237;tica decis&#243;ria e eticidade p&#250;blica s&#227;o algumas das resolu&#231;&#245;es prometeicas nas quais o PT &#8220;educou&#8221; politicamente milh&#245;es de pessoas. A constela&#231;&#227;o de intelectuais e professores aca-d&#234;micos que participaram direta e indiretamente, consciente e &#8220;inconscientemente&#8221;, org&#226;nica e &#8220;inorganicamente&#8221; desse projeto pol&#237;tico &#233; enorme. Indiscutivelmente, nunca na hist&#243;ria brasileira um partido pol&#237;tico e um projeto-programa vinculado &#227; esquerda arregimentou uma parcela t&#227;o grande da intelligentsia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tamb&#233;m nesse sentido, a elei&#231;&#227;o do Partido dos Trabalhadores trouxe uma ebu-li&#231;&#227;o intelectual e pol&#237;tica que mudar&#225; sobremaneira os rumos da luta de classes no Brasil. Colocando em suspenso as diversas indaga&#231;&#245;es ligadas ao balan&#231;o hist&#243;rico do PT e &#225;s quest&#245;es de programa, estrat&#233;gia e t&#225;tica que devem ser respondidas para superar definitivamente essa experi&#234;ncia hist&#243;rica, e focando apenas a quest&#227;o das principais an&#225;lises te&#243;ricas dos intelectuais (ex) petistas, buscaremos no presente artigo empreender uma abordagem cr&#237;tico-revolucion&#225;ria de um dos soci&#243;logos mais importantes para o debate intelectual brasileiro, tanto no passado como no atual es-t&#225;gio do pensamento social no pa&#237;s. Tomaremos como base o livro de Francisco de Oliveira que re&#250;ne o texto integral da Cr&#237;tica &#227; Raz&#227;o Dualista e o ensaio &#8220;O Orni-torrinco&#8221; (Ed. Boitempo), o qual criou frisson na medida em que discorre sobre os &#8220;descaminhos&#8221; do petismo no comando do Estado burgu&#234;s brasileiro, bem como a &#8220;rendi&#231;&#227;o&#8221; ao capital financeiro imperialista e a &#8220;insufici&#234;ncia&#8221; na estrutura&#231;&#227;o de um projeto pol&#237;tico-econ&#244;mico visando a retirar o pa&#237;s dos programas de ajuste con-servador impostos pelos organismos de domina&#231;&#227;o das burguesias imperialistas. A tese sobre a &#8220;nova classe&#8221; surge como tentativa de explica&#231;&#227;o para aliviar a perplexi-dade quase geral, depois de confirmada a dura realidade do governo Lula.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Procuraremos apontar em que aspectos a Cr&#237;tica &#227; Raz&#227;o Dualista rompe com as interpreta&#231;&#245;es burguesas dominantes acerca do capitalismo brasileiro, e em que pontos se revela sua profunda inconsist&#234;ncia, ao n&#227;o desenvolver os elementos po-sitivos de an&#225;lise a partir de uma perspectiva revolucion&#225;ria do ponto de vista dos trabalhadores. Apontando as raz&#245;es dessa inconsist&#234;ncia, e atravessando a transi&#231;&#227;o marcada pelo per&#237;odo petista, ao longo dos anos 1980 e 1990, buscaremos mostrar como e porque se deu o retrocesso presente nas teses do &#8220;Ornitorrinco&#8221;, evidente a partir da compara&#231;&#227;o entre o Francisco de Oliveira de 1972 e o de 2003. No percurso, o contraponto com a teoria da revolu&#231;&#227;o permanente de Trotsky ser&#225; refer&#234;ncia obri-gat&#243;ria, n&#227;o apenas pelo valor intr&#237;nseco dessa teoria para compreender os pa&#237;ses de desenvolvimento capitalista atrasado como o Brasil, mas tamb&#233;m para apontar a incongru&#234;ncia de Oliveira ao tentar se apoiar em aspectos isolados da teoria de Trotsky separando-os de uma concep&#231;&#227;o de conjunto, coerente com os enunciados que reivindica.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;As antinomias da Cr&#237;tica &#227; Raz&#227;o Dualista&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do ponto de vista de uma compreens&#227;o marxista da forma&#231;&#227;o e do desenvolvi-mento do capitalismo brasileiro, a Cr&#237;tica &#227; Raz&#227;o Dualista constitui uma tentativa de se contrapor ao dualismo da Cepal e ao evolucionismo corrente n&#227;o apenas nas vis&#245;es tradicionais burguesas, mas tamb&#233;m no etapismo stalinista, como de fato ex-plicita o pr&#243;prio autor, buscando sustenta&#231;&#227;o na teoria do desenvolvimento desigual e com-binado, elaborada originalmente por Trotsky. Por outro lado, como ficar&#225; evi-dente, Oliveira n&#227;o leva at&#233; as &#250;ltimas conseq&#252;&#234;ncias o elevado arsenal te&#243;rico esco-lhido por ele mesmo para empreender esse necess&#225;rio combate te&#243;rico e pol&#237;tico. Is-so porque, ao tentar transformar essa teoria em um mero marco anal&#237;tico, destitu&#237;do da perspectiva revolucion&#225;ria que a torna viva, Francisco de Oliveira cai numa s&#233;rie de inconsist&#234;ncias.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Uma tentativa de explicar o Brasil pela &#243;tica marxista&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Comecemos reafirmando que a CRD faz parte do restrito grupo de livros consi-derados cl&#225;ssicos na compreens&#227;o da forma&#231;&#227;o e da estrutura da sociedade burguesa brasileira, juntamente com Caio Prado Jr., Florestan Fernandes, Octavio Ianni, Nelson Werneck Sodr&#233; e Fernando Henrique Cardoso, para citar os maiores expoentes (inde-pendente das grandes diferen&#231;as entre as teses que defende cada um desses autores). Particularmente, a obra de Francisco de Oliveira constitui um aporte para o pensamento de esquerda no confronto com outras interpreta&#231;&#245;es te&#243;ricas, principalmente com as constru&#231;&#245;es conceituais da matriz weberiano-cultural. O cientista pol&#237;tico D&#233;cio Saes aponta duas dessas formula&#231;&#245;es de veio weberiano que disputam com o marxismo a hegemonia do pensamento social brasileiro; assim ele nos diz &#8220;... sobre a evolu&#231;&#227;o do Estado no Brasil&#8221; duas linhas competem com a teoria marxista, &#8220;a primeira delas se caracteriza pela defesa da tese segundo a qual tem ocorrido, ao longo da evolu&#231;&#227;o hist&#243;rica do Brasil &#8216;a preponder&#226;ncia do poder privado sobre o Estado'&#8221;1 e a outra &#8220;segunda grande concep&#231;&#227;o n&#227;o-marxista sobre a evolu&#231;&#227;o do Estado no Brasil, ca-racteriza-se pela defesa da tese de que um Estado patrimonial teria estado presente ao longo de toda a evolu&#231;&#227;o hist&#243;rica do Brasil. Esse tipo de Estado se caracteriza pe-la privatiza&#231;&#227;o dos cargos p&#250;blicos&#8221;2. Por exemplo, S&#233;rgio Buarque de Hollanda, um dos pais da ci&#234;ncia pol&#237;tica brasileira, defendia a tese segundo a qual a falta de &#8220;racio-nalidade societal&#8221; de nossas rela&#231;&#245;es s&#243;cio-culturais resultou no &#8220;gigantismo&#8221; de nosso Estado - constantemente interventor, exageradamente paternalista e inco-mensuravelmente inchado nas suas atribui&#231;&#245;es administrativas e gestion&#225;rias. A formula&#231;&#227;o cl&#225;ssica3 de SBH e de seus ep&#237;gonos s&#243; &#8220;esqueceu de perguntar-se&#8221; quem historicamente se beneficiou da const&#226;ncia interventora, do exagero paternalista e da administra&#231;&#227;o inchada! &#201; evidente, de acordo com dados estat&#237;sticos sobre nos-sa situa&#231;&#227;o social, que n&#227;o foram as classes trabalhadoras que retiraram seu quinh&#227;o do nosso &#8220;apavorante&#8221; e &#8220;monstruoso&#8221; Estado. Sem d&#250;vida, e de forma indel&#233;vel, a burguesia nacional (que por sua fraqueza precisou do intervencionismo estatal), em conjunto com a burguesia imperialista, s&#227;o os setores sociais historicamente favore-cidos por essa caracter&#237;stica estatista.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em sua CRD, Oliveira aporta teoricamente objetivando desconstruir a argumen-ta&#231;&#227;o acima referida. Partindo de buscar estabelecer o real papel do Estado no desen-volvimento industrial brasileiro, e em particular da legisla&#231;&#227;o trabalhista como pol&#237;tica de Estado para favorecer a acumula&#231;&#227;o burguesa, Oliveira contraria os ep&#237;gonos de SBH4 - que no que concerne &#224; legisla&#231;&#227;o trabalhista p&#243;s-1930, dizem que se criou no Brasil uma pol&#237;tica salarial corporativista e de cunho populista, atrav&#233;s de medidas artificiais empregadas pelo Estado varguista. Sobre isto Oliveira responde: &#8220;Em primei-ro lugar, &#233; estranha a abstra&#231;&#227;o que se faz do papel do Estado na pr&#243;pria cria&#231;&#227;o do mercado: a que mercado se referem, quando dizem que os n&#237;veis do sal&#225;rio m&#237;nimo fo-ram ou s&#227;o fixados acima do que se poderia esperar num mercado livre?&#8221; E mais abai-xo: &#8220;Importa n&#227;o esquecer que a legisla&#231;&#227;o interpretou o sal&#225;rio m&#237;nimo rigorosamente como sal&#225;rio de subsist&#234;ncia, isto &#233;, de reprodu&#231;&#227;o...&#8221;5 Deste modo, o Estado burgu&#234;s brasileiro, intervindo para fomentar o modo de produ&#231;&#227;o capitalista e promover sua expans&#227;o na medida em que nossas classes burguesas s&#227;o d&#233;beis, criou uma pol&#237;tica salarial ratificada pela legisla&#231;&#227;o trabalhista de rebaixamento do conjunto do salariato - de tal modo que permitiu &#227; burguesia um espa&#231;o significativo para o incremento do capital. Se por um lado o Estado deprimiu o sal&#225;rio depreciando sobremaneira o n&#237;vel de vida das classes trabalhadoras, por outro lado configurou as bases da descomunal concentra&#231;&#227;o de capital nas m&#227;os de um setor capitalista; sobre isto consta na CRD:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;[...] se o sal&#225;rio fosse determinado por qualquer esp&#233;cie de mercado livre, na acep&#231;&#227;o da teoria da concorr&#234;ncia perfeita, &#233; prov&#225;vel que ele subisse para algumas categorias oper&#225;rias especializadas; a regulamenta&#231;&#227;o das leis do trabalho operou a reconvers&#227;o a um denominador comum de todas as cate-gorias, com o que antes de prejudicar a acumula&#231;&#227;o, beneficiou-a.6&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Buscando explicar a especificidade do desenvolvimento capitalista brasileiro, Francisco de Oliveira d&#225; um passo al&#233;m do &#8220;lugar comum&#8221; da chamada &#8220;substitui&#231;&#227;o de importa&#231;&#245;es&#8221;, polemizando com a err&#244;nea vis&#227;o da Cepal7 de que o desenvolvi-mento do capital e sua valoriza&#231;&#227;o se realizariam no &#8220;mercado&#8221; com a din&#226;mica dos pre&#231;os, ou seja: a Cepal argumenta que um dos elementos constitutivos do processo de industrializa&#231;&#227;o brasileiro, a substitui&#231;&#227;o das importa&#231;&#245;es, pautava-se nas neces-sidades do consumo, e n&#227;o nas necessidades da produ&#231;&#227;o. A conseq&#252;&#234;ncia dessa tese &#233; o desprezo pela divis&#227;o da sociedade em classes como motor do desenvolvimen-to do capitalismo - este tipo de abordagem da Cepal, balizada pela economia margina-lista-neocl&#225;ssica8, tem como caracter&#237;stica (impl&#237;cita no caso cepalino) uma cr&#237;tica contra a teoria do valor de Marx -, enfatizando o aspecto do consumo, considerado por eles como fundamento para a evolu&#231;&#227;o da sociedade moderna. Assim, Francisco de Oliveira na CRD descreve a concep&#231;&#227;o da Cepal: &#8220;Parece, assim&#8221;, para ela:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#8220;que a industrializa&#231;&#227;o substitutiva de importa&#231;&#245;es funda-se numa neces-sidade do consumo e n&#227;o numa necessidade da produ&#231;&#227;o, verbi gratiae, da acumula&#231;&#227;o; al&#233;m disso, as formas de consumo impostas de fora para dentro parecem n&#227;o ter nada que ver com a estrutura de classes...&#8221;9.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Contra essa vis&#227;o, Oliveira sustenta o argumento de que o contexto internacional for&#231;ou a altera&#231;&#227;o no programa de acumula&#231;&#227;o do capital da burguesia brasileira. Es-te processo, segundo a CRD, foi efetivado com o objetivo claro de satisfazer as &#8220;ne-cessidades de acumula&#231;&#227;o&#8221;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fincadas as bases econ&#244;mico-materiais da evolu&#231;&#227;o do processo de industriali-za&#231;&#227;o, com a fixa&#231;&#227;o do sal&#225;rio m&#237;nimo e a forma&#231;&#227;o do programa de produ&#231;&#227;o de bens de consumo dur&#225;veis e de capital, o Brasil marcha na trilha da moderniza&#231;&#227;o ca-pitalista. A fun&#231;&#227;o da agricultura de subsist&#234;ncia e de seu excedente articula-se dia-leticamente com a disposi&#231;&#227;o de acumula&#231;&#227;o concentrada de capital formando um processo combinado, j&#225; que o conjunto das rela&#231;&#245;es modernas de produ&#231;&#227;o capitalista se apropria e se ap&#243;ia indefectivelmente em nosso atraso expressado pelo setor agr&#237;-cola. Sobre esse ponto se d&#225; uma das inflex&#245;es importantes com respeito &#227; tradi&#231;&#227;o interpretativa cepalina sobre &#8220;a fun&#231;&#227;o da agricultura de subsist&#234;ncia para a acumu-la&#231;&#227;o interna de capital. Aqui, a Cepal, Prebisch e Furtado haviam empacado com a tese do setor atrasado como obst&#225;culo ao desenvolvimento&#8221;. Sumariando a tese de-fendida por Francisco de Oliveira, pode-se dizer que a n&#227;o supera&#231;&#227;o da problem&#225;tica agr&#225;ria10 &#8220;permitiu&#8221; a manuten&#231;&#227;o da for&#231;a de trabalho a n&#237;veis reduzid&#237;ssimos, circuns-t&#226;ncia esta que permitiu uma acumula&#231;&#227;o de capital e um incremento industrial com maior intensidade e viabilidade: &#8220;Sustentei, ent&#227;o, que a agricultura atrasada financiava a agricultura moderna e a industrializa&#231;&#227;o&#8221;. Ainda de acordo com o autor, a preval&#234;ncia de mecanismos de atraso no nosso sistema agr&#237;cola forneceu para os centros urbanos industrializados um &#8220;enorme contingente de m&#227;o de obra&#8221; e uma ampla &#8220;expans&#227;o do ex&#233;rcito industrial de reserva&#8221;. Diz ele:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#8220;as culturas de subsist&#234;ncia tanto ajudavam a baixar o custo de reprodu&#231;&#227;o da for&#231;a de trabalho nas cidades, o que facilitava a acumula&#231;&#227;o de capital industrial, quanto produziam um excedente n&#227;o-reinvert&#237;vel em si mesmo, que se escoava para financiar a acumula&#231;&#227;o urbana&#8221;.11&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aqui, mais uma vez, evidencia-se a repress&#227;o sistem&#225;tica sobre os sal&#225;rios como pilar da expans&#227;o capitalista brasileira12. Desse modo, &#233; de Francisco de Oliveira o m&#233;rito por desvendar as rela&#231;&#245;es efetivas entre esses elementos constitutivos do desenvolvimento capitalista no Brasil: &#8220;Esse conjunto de imbrica&#231;&#245;es entre agricultura de subsist&#234;ncia, sistema banc&#225;rio, financiamento da acumula&#231;&#227;o industrial e bara-teamento da reprodu&#231;&#227;o da for&#231;a de trabalho nas cidades constitu&#237;a o fulcro do pro-cesso de expans&#227;o capitalista, que havia deixado de ser percebido pela teoriza&#231;&#227;o ce-palino-furtadiana&#8221;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por &#250;ltimo, o sistem&#225;tico e ostensivo rebaixamento do custo da for&#231;a de trabalho &#233; completado por um relacionamento urbano ca&#243;tico e antidemocr&#225;tico (j&#225; que a quest&#227;o habitacional &#233; um dos elementos constitutivos das demandas democr&#225;ticas) para as classes trabalhadoras, de modo a reduzir o custo de reprodu&#231;&#227;o da for&#231;a de trabalho, atrav&#233;s da cria&#231;&#227;o de mutir&#245;es (e hoje de centros habitacionais nas periferias), inva-riavelmente realizados pelos pr&#243;prios propriet&#225;rios, &#8220;impossibilitando&#8221; a exig&#234;ncia de melhores sal&#225;rios e condi&#231;&#245;es de vida mais dignas para o operariado. Durante o pro-cesso de expans&#227;o capitalista baseado na intensa explora&#231;&#227;o da for&#231;a de trabalho, nas palavras de Francisco de Oliveira: &#8220;Uma n&#227;o-insignificante porcentagem das resid&#234;ncias das classes trabalhadoras foi constru&#237;da pelos pr&#243;prios propriet&#225;rios, utilizando dias de folga, fins de semana e formas de coopera&#231;&#227;o como o mutir&#227;o&#8221;, e &#8220;assim, uma ope-ra&#231;&#227;o que &#233;, na apar&#234;ncia, uma sobreviv&#234;ncia de pr&#225;ticas de &#8216;economia natural' dentro das cidades, casa-se admiravelmente bem com um processo de expans&#227;o capitalista, que tem uma de suas bases e seu dinamismo na intensa explora&#231;&#227;o da for&#231;a de trabalho&#8221;.13&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;As conclus&#245;es tiradas e suas inconsist&#234;ncias&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Expostos ent&#227;o dessa maneira os elementos que se colocariam como fundantes do capitalismo nacional, Francisco de Oliveira sistematiza os termos de sua pol&#234;mica e explicita a conclus&#227;o &#8220;econ&#244;mica&#8221; (e logo pol&#237;tica) de sua an&#225;lise:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tive que entrar em forte discord&#226;ncia com as teorias do atraso na agricultura como fator impeditivo, com a do &#8220;incha&#231;o&#8221; das cidades como marginalidade, com a da incompatibilidade da legisla&#231;&#227;o do sal&#225;rio m&#237;nimo com a acumula&#231;&#227;o de capital, o que n&#227;o quer dizer que as considerasse fundamentos s&#243;lidos pa-ra a expans&#227;o capitalista; ao contr&#225;rio, sua debilidade residia e reside ainda precisamente na m&#225; distribui&#231;&#227;o de renda que estrutura, que constituir&#225; s&#233;rio empecilho para a futura acumula&#231;&#227;o.14&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ou seja, a ruptura com as vis&#245;es dualistas (t&#237;picas do senso comum) e o avan&#231;o em ver o conjunto de elementos como partes de um mesmo processo integrado (uma totalidade dial&#233;tica) s&#227;o jogados por terra quando Oliveira eleva a &#8220;momento prepon-derante&#8221; de sua dial&#233;tica a quest&#227;o da distribui&#231;&#227;o de renda.15 De resto, a &#234;nfase na m&#225; distribui&#231;&#227;o de renda como fator impeditivo (potencial) para a continuidade da ex-pans&#227;o capitalista n&#227;o seria uma tentativa de convencer a burguesia de que &#233; melhor para ela mesma redistribuir um pouco para n&#227;o perder muito? Ainda que a &#250;ltima cita-&#231;&#227;o trate de uma releitura problem&#225;tica da CRD, feita pelo autor em seu &#8220;Ornitorrinco&#8221;, como veremos a seguir, nesse aspecto a frase citada explicita o fundo de uma quest&#227;o que de fato est&#225; presente na CRD.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para n&#243;s, essa &#233; uma express&#227;o dos impasses em que cai Oliveira ao n&#227;o abando-nar a ilus&#227;o em uma pol&#237;tica burguesa capaz de aplacar as injusti&#231;as engendradas pelo capitalismo no Brasil. Assim, o horizonte reformista termina n&#227;o apenas amesquinhando as conclus&#245;es, mas deformando a pr&#243;pria realidade descrita: desse modo, a m&#225; distri-bui&#231;&#227;o de renda aparece como o grande pecado dessa sociedade superexploradora, do mesmo modo como a possibilidade de transforma&#231;&#227;o social, para o bem e para o mal, se restringe &#227; interven&#231;&#227;o poss&#237;vel nesse &#250;nico elemento da realidade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No &#250;ltimo cap&#237;tulo da CRD, Oliveira analisa como com o plano de metas do go-verno Kubitschek e a economia p&#243;s-1964, respectivamente, o processo de expans&#227;o capitalista se intensifica e aprofundam-se suas contradi&#231;&#245;es - o plano de metas de Juscelino (cinq&#252;enta anos em cinco), balizado pela acelera&#231;&#227;o da industrializa&#231;&#227;o, tem que recorrer a financiamentos externos, tornando nossa economia ainda mais de-pendente; na ditadura militar o n&#237;vel das contradi&#231;&#245;es aumenta, na medida em que a depend&#234;ncia externa cresce com as necessidades de incremento da economia. O di-ferencial entre os dois momentos, de acordo com Francisco de Oliveira, &#233; que a partir de 1964, com a monopoliza&#231;&#227;o da economia e a intensifica&#231;&#227;o dos empr&#233;stimos exter-nos, surgem com maior peso no sistema econ&#244;mico brasileiro os setores financeiros ligados ao mercado de capitais, dando in&#237;cio &#227; &#8220;precoce hegemonia do capital finan-ceiro&#8221;; lembrando ainda que a caracter&#237;stica fundante da pol&#237;tica econ&#244;mica e da &#8220;pol&#237;tica&#8221; propriamente dita na ditadura foi a conten&#231;&#227;o repressiva do sal&#225;rio e a opress&#227;o pol&#237;tica sobre os trabalhadores. Ou seja, a ditadura foi o instrumento utilizado pela burguesia para levar ao extremo esse processo que vem da pr&#243;pria constitui&#231;&#227;o do capitalismo nacional.16 Ap&#243;s descrever amplamente as contradi&#231;&#245;es decorrentes desse processo, Francisco de Oliveira termina afirmando:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A supera&#231;&#227;o dessas contradi&#231;&#245;es n&#227;o &#233; um processo que possa ocorrer es-pontaneamente, nem os deserdados do sistema podem sequer pensar que uma reconvers&#227;o da economia brasileira a um padr&#227;o menos desigualit&#225;rio &#233; uma opera&#231;&#227;o de pura pol&#237;tica. No est&#225;gio atual, nenhuma das duas partes po-de pedir que abra m&#227;o de suas pr&#243;prias perspectivas: nem &#227; burguesia se pode pedir que abra m&#227;o da perspectiva da acumula&#231;&#227;o, que &#233; pr&#243;pria dela, nem &#225;s classes trabalhadoras se pode pedir que incorporem a perspectiva da acumula&#231;&#227;o que lhe &#233; estranha.17&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por&#233;m, o que significa do ponto de vista pr&#225;tico e de classe pedir que a burguesia abra m&#227;o da acumula&#231;&#227;o? Ou ent&#227;o, desejar e pedir que a classe trabalhadora se in-corpore &#227; acumula&#231;&#227;o? Essa &#233; uma maneira extremamente confusa de colocar a ques-t&#227;o. Se do que se trata &#233; de &#8220;pedir &#227; burguesia&#8221; no sentido de alimentar ilus&#245;es de que ela, de boa vontade, pode ser sujeito de alguma transforma&#231;&#227;o estrutural do quadro existente, de fato n&#227;o se pode pedir nada, pois significaria pedir ao senhor que deixe de ser senhor. Por outro lado, entretanto, do que se trata &#233; de arrebatar o poder po-l&#237;tico e, com ele, o conjunto dos meios de produ&#231;&#227;o da burguesia, obrigando-a a &#8220;abrir m&#227;o da perspectiva da acumula&#231;&#227;o&#8221;. Na verdade, Francisco de Oliveira coloca essas indaga&#231;&#245;es para tentar ilustrar o grau de polariza&#231;&#227;o das tend&#234;ncias nacionais, num momento em que a ditadura ainda estava no auge, por&#233;m j&#225; se incubavam suas contradi&#231;&#245;es (basta assinalar que o trecho citado, e com ele o livro, termina afirmando que a disjuntiva a que tal polariza&#231;&#227;o conduz &#233; &#8220;apartheid ou revolu&#231;&#227;o social&#8221;). Po-r&#233;m, se em termos hist&#243;ricos estaria correto colocar assim a quest&#227;o, Francisco de Oliveira subestima justamente a capacidade de auto-reforma do regime, que foi a perspectiva que se confirmou. E pior, nega-se assim a ver que a continuidade da opress&#227;o de classe pode (como de fato p&#244;de) agravar-se sem necessariamente tornar-se mais expl&#237;cita (como levaria a crer a met&#225;fora do apartheid), precisamente devido aos efeitos cosm&#233;ticos da pol&#237;tica de rea&#231;&#227;o democr&#225;tica (como foi o caso de nossa transi&#231;&#227;o pactuada &#227; democracia).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Al&#233;m disso, a maneira como Oliveira coloca o problema, que evidentemente j&#225; implica um campo particularmente estreito de solu&#231;&#245;es poss&#237;veis, ignora completa-mente uma das principais conquistas da teoria marxista no s&#233;culo passado, a qual foi justamente o desenvolvimento da teoria e do m&#233;todo da revolu&#231;&#227;o permanente, ela-borados por Trotsky a partir do in&#237;cio do s&#233;culo XX. Partindo de uma compreens&#227;o dial&#233;tica da totalidade do capitalismo mundial, Trotsky aportava ao marxismo com a concep&#231;&#227;o na qual, dado o n&#237;vel de contradi&#231;&#227;o entre as rela&#231;&#245;es sociais de produ&#231;&#227;o e o desenvolvimento das for&#231;as produtivas, haveria uma altera&#231;&#227;o crucial na correla&#231;&#227;o de for&#231;as sociais e pol&#237;ticas no interior das na&#231;&#245;es burguesas. De tal modo que, nos pa&#237;ses rec&#233;m entrados no sistema capitalista internacional como a R&#250;ssia e nos pa&#237;-ses semicoloniais como os da Am&#233;rica Latina, tal altera&#231;&#227;o criaria um novo estatuto para a luta de classes e a revolu&#231;&#227;o prolet&#225;ria. Assim, a reflex&#227;o te&#243;rica visando ao entendimento e &#227; supera&#231;&#227;o do mundo burgu&#234;s deveria focar-se na pol&#237;tica, no sen-tido de compreender as liga&#231;&#245;es entre as contradi&#231;&#245;es na estrutura econ&#244;mica, suas express&#245;es pol&#237;ticas e de um modo geral o conjunto de manifesta&#231;&#245;es da luta de clas-ses. A. Brossat tem um coment&#225;rio explicativo sobre este momento hist&#243;rico:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Trotsky mostrou como, ao contr&#225;rio, a revolu&#231;&#227;o prolet&#225;ria era poss&#237;vel na R&#250;ssia, a partir de situar-se no ponto de vista da totalidade do sistema burgu&#234;s mundial. Assim colocava em relevo como - na &#233;poca em que a revolu&#231;&#227;o bur-guesa j&#225; realizou globalmente seus fins hist&#243;ricos e o sistema burgu&#234;s, tal e qual est&#225; estruturado politicamente &#227; escala internacional, constitui um obst&#225;-culo ao crescimento das for&#231;as produtivas - instaura-se uma relativa auto-nomia do campo pol&#237;tico &#227; escala do planeta, que invalida para sempre a ma-neira marxista vulgar de raciocinar mecanicamente sobre o curso da revolu&#231;&#227;o em termos de totalidades isoladas, no marco dos Estados nacionais, pela sim-ples aplica&#231;&#227;o de um modelo hist&#243;rico universal supostamente infal&#237;vel.18&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao contr&#225;rio dessa perspectiva, o esquema te&#243;rico desenvolvido por Francisco de Oliveira na CRD possui uma grave insufici&#234;ncia, na medida em que n&#227;o capta a dial&#233;tica entre a estrutura objetiva e a disposi&#231;&#227;o subjetiva, ou seja, o papel que o proletariado pode ter como sujeito independente, algo imprescind&#237;vel no arcabou&#231;o conceitual da teoria da revolu&#231;&#227;o permanente. A defesa da economia mundial como totalidade interdependente, concep&#231;&#227;o expl&#237;cita para Trotsky, &#233; em Francisco de Oli-veira apenas abstrata e entra em gritante contradi&#231;&#227;o com o ecletismo de sua obra, que reivindica o desenvolvimento desigual e combinado, por&#233;m persegue um desen-volvimento nacional capitalista aut&#244;nomo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao n&#227;o realizar este salto metodol&#243;gico (pelas raz&#245;es acima descritas), Francisco de Oliveira n&#227;o vislumbra nenhum caminho para o proletariado brasileiro, j&#225; que a quest&#227;o fundamental seria propugnar uma sa&#237;da pol&#237;tica de independ&#234;ncia de classe, atrav&#233;s da qual os trabalhadores pudessem avan&#231;ar em constituir-se como sujeito hist&#243;rico, adquirindo e ampliando sua influ&#234;ncia pol&#237;tica sobre as demais classes n&#227;o capitalistas, e colocando como perspectiva concreta um governo dos trabalhadores. O &#8220;economicismo&#8221; de Oliveira &#233; apenas a contrapartida de sua aus&#234;ncia de confian&#231;a nessa capacidade subjetiva do proletariado para dar uma resposta revolucion&#225;ria &#227; situa&#231;&#227;o descrita. No esquema de Francisco de Oliveira, os trabalhadores existem apenas como &#8220;classe em si&#8221;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De conjunto, poder&#237;amos dizer que o principal problema da CRD &#233; que ela se serve de uma esp&#233;cie de teoria do desenvolvimento desigual e combinado truncada, restrita ao &#226;mbito econ&#244;mico, sem vantagem do atraso, sem nega&#231;&#227;o da nega&#231;&#227;o, nem transforma&#231;&#227;o da quantidade em qualidade; em suma, uma vis&#227;o que aprisiona a grande contribui&#231;&#227;o dial&#233;tica de Trotsky a um marco formal e, quando n&#227;o est&#225;tico, pelo menos restrito &#227; uma harmoniza&#231;&#227;o compuls&#243;ria entre os opostos. As contra-di&#231;&#245;es de classe apenas aparecem como descri&#231;&#227;o da mis&#233;ria do trabalhador, mas nunca como luta de classes efetiva. N&#227;o existe em sua an&#225;lise a tens&#227;o dial&#233;tica entre a condi&#231;&#227;o objetiva e a disposi&#231;&#227;o subjetiva da classe trabalhadora. &#201; por isso, por exemplo, que o pr&#243;prio avan&#231;o do movimento de massas no pr&#233;-1964, em resposta ao qual veio o golpe, nem &#233; nomeado na an&#225;lise. De conjunto, em Oliveira, a interpene-tra&#231;&#227;o dos contr&#225;rios perde todo car&#225;ter explosivo, e triunfa uma esp&#233;cie de &#8220;equi-l&#237;brio&#8221; imposs&#237;vel, que se tem algum efeito &#233; o de tornar opaca toda vis&#227;o de futuro: da&#237; o necess&#225;rio estreitamento de perspectiva entre os dois textos, ainda que ambos sejam devedores de uma mesma matriz, a qual buscamos esbo&#231;ar aqui. Sua concep&#231;&#227;o n&#227;o contempla salto ou ruptura. As contradi&#231;&#245;es da combina&#231;&#227;o de desigualdades n&#227;o s&#227;o vistas tais como s&#227;o, isto &#233;, como contradi&#231;&#245;es, mas apenas como articula&#231;&#245;es de desigualdades, por assim dizer, &#8220;perfeitas&#8221;. O resultado &#233; um todo &#8220;harmonioso&#8221;, para al&#233;m de se aprovar ou n&#227;o seus resultados efetivos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;A transi&#231;&#227;o dos anos 1980 e 1990&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Durante as d&#233;cadas de 1980 e 1990, que comp&#245;em o per&#237;odo de transi&#231;&#227;o entre a CRD e &#8220;O Ornitorrinco&#8221; e, ao mesmo tempo, configuram os anos de engajamento do soci&#243;logo no projeto petista, houve uma transi&#231;&#227;o nas concep&#231;&#245;es e nas teses defendidas por ele.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como se sabe, o PT foi criado a partir das greves oper&#225;rias ocorridas num dos principais p&#243;los industriais do pa&#237;s, e que representaram um momento hist&#243;rico da luta de classes no Brasil. A evolu&#231;&#227;o das greves demonstrou, por um lado, a po-tencialidade revolucion&#225;ria da classe trabalhadora brasileira e exemplificou o que o movimento oper&#225;rio &#233; capaz de realizar quando se organiza de forma independente. Tragicamente, por outro lado, n&#227;o s&#243; as greves do ABC n&#227;o atingiram o v&#233;rtice de sua capacidade pol&#237;tica (a unifica&#231;&#227;o com outros setores do movimento de massas e a forma&#231;&#227;o estendida de organismos de democracia direta), como tamb&#233;m engendraram contraditoriamente o PT, isto &#233;, um partido incapaz de expressar a independ&#234;ncia de classe dos trabalhadores.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Francisco de Oliveira animou por v&#225;rios anos o projeto de concilia&#231;&#227;o de classes do petismo e foi um dos mais vigorosos na defesa do programa &#8220;democr&#225;tico-cidad&#227;o&#8221; do PT. Ele foi um intelectual de grande atua&#231;&#227;o, tanto no meio acad&#234;mico como no pol&#237;tico, defendendo a id&#233;ia de se chegar ao socialismo por dentro da democracia burguesa. Com isso, contrariava inclusive sua an&#225;lise te&#243;rica anterior, onde havia reunido evid&#234;ncias suficientes para demonstrar que a burguesia brasileira, atrelada ao imperialismo, n&#227;o deixaria &#8220;nichos&#8221; no interior de sua democracia de classe para o &#8220;preenchimento&#8221; pelos interesses dos trabalhadores.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nesse sentido, a pr&#243;pria trajet&#243;ria do PT mostrou que n&#227;o bastava a defesa &#8220;in-g&#234;nua&#8221; do aprofundamento da democracia, visto que o subproduto da ret&#243;rica de &#8220;defesa da democracia&#8221; foi a concilia&#231;&#227;o de classes praticada pelo partido desde sua origem, assim como as trai&#231;&#245;es &#225;s lutas reais dos trabalhadores, como por exemplo a greve dos petroleiros de 1995, na qual o PT negociava com a burguesia o fim da greve enquanto FHC ordenava a repress&#227;o dos oper&#225;rios paralisados, e isto porque estes, al&#233;m de defender seus sal&#225;rios, estavam combatendo os planos de privatiza&#231;&#227;o do petr&#243;leo brasileiro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ora, Francisco de Oliveira foi, em todos os momentos, um defensor infatig&#225;vel do PT, e sempre confiou que este partido, por meio de reformas democr&#225;ticas, realizaria seu sonho social-democrata, adornado com o nome de &#8220;direitos do antivalor&#8221;. Quan-do dizemos que &#8220;O Ornitorrinco&#8221; &#233; um retrocesso com rela&#231;&#227;o &#227; CRD, &#233; preciso ficar claro que tal regress&#227;o teve seu marco inicial no advento do PT e em sua participa&#231;&#227;o org&#226;nica no mesmo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; o que se expressa em textos como &#8220;O surgimento do antivalor&#8221; e &#8220;A economia pol&#237;tica da social-democracia&#8221;19, escritos nesse per&#237;odo de transi&#231;&#227;o. Isso porque, no plano te&#243;rico, Francisco de Oliveira n&#227;o apresenta elementos dissonantes de sua milit&#226;ncia pol&#237;tica. O ponto nevr&#225;lgico dessa elabora&#231;&#227;o de Oliveira &#233; o conceito de antivalor - atrav&#233;s do qual o autor busca demonstrar que a evolu&#231;&#227;o da economia mundial levaria ao esvaecimento da teoria do valor, na medida em que a composi&#231;&#227;o do sal&#225;rio indireto (previd&#234;ncia, seguro desemprego, benef&#237;cios sociais) estaria colo-cando o n&#250;cleo de composi&#231;&#227;o do sal&#225;rio direto em quest&#227;o, assim como os investi-mentos estatais (fundo p&#250;blico e financiamento p&#250;blico) na produ&#231;&#227;o determinariam uma nova forma de incremento, de tal modo que a composi&#231;&#227;o org&#226;nica de capital-valor n&#227;o estaria determinada pelas rela&#231;&#245;es sociais de produ&#231;&#227;o e por sua conex&#227;o interna. A principal conseq&#252;&#234;ncia pol&#237;tica seria ent&#227;o a necessidade de alargamento da democracia e da esfera p&#250;blica, intuindo a consecu&#231;&#227;o do projeto do antivalor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Finalmente, a cren&#231;a de Francisco de Oliveira de que o Partido dos Trabalhadores realizaria o projeto do antivalor foi completamente para o ralo ap&#243;s a elei&#231;&#227;o de 2002. O soci&#243;logo, tanto n&#227;o &#8220;enxergou&#8221; as trai&#231;&#245;es contidas na hist&#243;ria do partido, como n&#227;o analisou teoricamente (como todo nacional-reformista) a situa&#231;&#227;o do sistema pol&#237;tico-econ&#244;mico internacional. Deste modo, seu &#8220;Ornitorrinco&#8221; surge como guarida para os que n&#227;o v&#234;em a necessidade da explica&#231;&#227;o te&#243;rico-revolucion&#225;ria do pa&#237;s e do pr&#243;prio PT. &#201; por isso que, se as greves do final dos anos 1970 e come&#231;o dos 1980 s&#227;o rea&#231;&#245;es concentradas do movimento de massas ao processo relativamente captado pela CRD, a hist&#243;ria pol&#237;tica do PT n&#227;o entra em seus ensaios posteriores. Em particular no &#8220;Ornitorrinco&#8221;, existe um certo v&#225;cuo de id&#233;ias, suficiente para que, no momento mesmo da realiza&#231;&#227;o de sua aposta, que sempre foi pela cidadania, distribui&#231;&#227;o de renda etc (a chegada de Lula &#227; presid&#234;ncia), o soci&#243;logo economista n&#227;o tenha nada mais a nos dizer do que esconder-se atr&#225;s da &#8220;teoria&#8221; da &#8220;nova classe&#8221;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;O retrocesso presente no &#8220;Ornitorrinco&#8221;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dif&#237;cil seria estabelecer uma compara&#231;&#227;o entre o ensaio &#8220;O Ornitorrinco&#8221; e a CRD de 1972. N&#227;o se trata apenas de que &#8220;O Ornitorrinco&#8221; apresente um tom &#8220;menos cien-t&#237;fico&#8221;, mais ensa&#237;stico, mas sim de que, vistos ambos de um ponto de vista te&#243;rico, salta aos olhos o desn&#237;vel em mat&#233;ria de rigor cient&#237;fico e metodol&#243;gico. No entanto, para al&#233;m do tom despojado, &#8220;O Ornitorrinco&#8221; expressa problemas diretamente ligados &#227; derrota de um projeto pol&#237;tico, e &#227; ativa&#231;&#227;o dos limites de uma incurs&#227;o explicativa de-terminada. Se na CRD, como vimos, a falta de uma sa&#237;da prolet&#225;ria levava &#225;s incon-sist&#234;ncias apontadas, no &#8220;Ornitorrinco&#8221; o problema se agrava sensivelmente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De todas as quest&#245;es abordadas no livro, marcado em grande medida por uma certa tentativa de reconcilia&#231;&#227;o tardia com a Cepal20, gostar&#237;amos de salientar dois aspectos que nos parecem centrais: um, a tese de que o Brasil j&#225; teve a chance de conquistar uma localiza&#231;&#227;o superior na divis&#227;o internacional do trabalho, por&#233;m te-ria perdido a oportunidade. Isto ligado &#227; sua interpreta&#231;&#227;o do significado das mu-dan&#231;as tecnol&#243;gicas ocorridas nas &#250;ltimas d&#233;cadas. O segundo aspecto sobre o qual nos deteremos &#233; sua tese sobre o surgimento de uma &#8220;nova classe&#8221; em torno &#227; administra&#231;&#227;o dos fundos de pens&#227;o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Antes, do ponto de vista te&#243;rico, chamemos a aten&#231;&#227;o para o ecletismo presente no &#8220;Ornitorrinco&#8221;: o ensaio de fato se constitui como um am&#225;lgama de sociologia p&#243;s-moderna, revaloriza&#231;&#227;o do pensamento da Cepal, elementos de marxismo, defesa do Welfare State, e por a&#237; vai! Este ecletismo &#233; o motivo principal da fraqueza te&#243;rica do tex-to. Tanto &#233; assim, que a releitura que se faz da CRD enfatiza justamente estes aspectos; no &#8220;Ornitorrinco&#8221;, a CRD aparece como manifestamente ecl&#233;tica: &#8220;como &#8216;cr&#237;tica', ela pertence ao campo marxista, e, como especificidade, ao campo cepalino&#8221;. Nesse mesmo sentido, prossegue em tom de desculpas: &#8220;Embora arroubos do tempo (!) tenham-lhe inscrito invectivas contra os cepalinos, eu j&#225; me penitenciei desses equ&#237;vocos, a for-ma tosca de ajudar a introduzir novos elementos na constru&#231;&#227;o da especificidade da forma brasileira do subdesenvolvimento&#8221;.21 N&#227;o se trata aqui de uma quest&#227;o menor, pois se a for&#231;a da CRD era colocar-se como um passo mais ou menos decidido rumo a uma rup-tura com a interpreta&#231;&#227;o cepalina, e sua debilidade estava precisamente no fato de que n&#227;o pudesse levar a perspectiva cr&#237;tico-revolucion&#225;ria at&#233; as &#250;ltimas con-seq&#252;&#234;ncias, hoje o soci&#243;logo se ap&#243;ia manifestamente no elemento mais atrasado contra o mais avan&#231;ado de sua teoriza&#231;&#227;o. Ao relativizar sua cr&#237;tica &#227; Cepal e, pior, atribu&#237;-la a &#8220;arroubos&#8221; de juventude, Francisco de Oliveira d&#225; um passo enorme... para tr&#225;s.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Burguesia nacional e imperialismo&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Come&#231;ando ent&#227;o pela vis&#227;o que apresenta Francisco de Oliveira sobre as dife-ren&#231;as entre o que ele chama de segunda e terceira revolu&#231;&#227;o industrial, diz ele:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O subdesenvolvimento pareceria ser uma evolu&#231;&#227;o &#225;s avessas: as classes dominantes, inseridas numa divis&#227;o do trabalho que opunha produtores de mat&#233;rias-primas e produtores de bens de capital, optavam por uma forma de divis&#227;o do trabalho interna que preservasse a domina&#231;&#227;o: &#8220;consci&#234;ncia&#8221; e n&#227;o acaso. Ficava aberta a porta da transforma&#231;&#227;o (!).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ou seja, o per&#237;odo do &#8220;subdesenvolvimento&#8221; seria marcado, em primeiro plano, pelas possibilidades que mantinha abertas e, nesse sentido, se expressa mesmo uma certa &#8220;saudade do subdesenvolvimento&#8221;. O que contrasta fortemente com a vis&#227;o do presente mostrada a seguir:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Hoje, o ornitorrinco perdeu a capacidade de escolha, de &#8220;sele&#231;&#227;o&#8221;, e por isso &#233; uma evolu&#231;&#227;o truncada: como sugere a literatura da economia da tecnologia, o progresso t&#233;cnico &#233; incremental... Sendo incremental, ele depende funda-mentalmente da acumula&#231;&#227;o cient&#237;fico-tecnol&#243;gica anterior. Enquanto o pro-gresso t&#233;cnico da Segunda Revolu&#231;&#227;o Industrial permitia saltar &#227; frente, ope-rando por rupturas sem pr&#233;via acumula&#231;&#227;o t&#233;cnico-cient&#237;fica, por se tratar de conhecimento difuso e universal (?!), o novo conhecimento t&#233;cnico-cient&#237;fico est&#225; trancado nas patentes, e n&#227;o est&#225; dispon&#237;vel nas prateleiras do super-mercado das inova&#231;&#245;es... Essa combina&#231;&#227;o de descartabilidade, efemeridade e progresso incremental corta o passo &#225;s economias e sociedades que perma-necem no rastro do conhecimento t&#233;cnico-cient&#237;fico.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sim, por&#233;m n&#227;o se trata tanto da natureza do conhecimento respectivo a cada etapa de desenvolvimento t&#233;cnico, mas das condi&#231;&#245;es da economia mundial que permitiram a industrializa&#231;&#227;o e das condi&#231;&#245;es atuais de crise estrutural capitalista, que n&#227;o d&#227;o margem a que o pa&#237;s participe organicamente do desenvolvimento tec-nol&#243;gico. Ou seja, a quest&#227;o real &#233; a da divis&#227;o internacional do trabalho, e da curva de desenvolvimento capitalista22.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que temos a nos perguntar &#233; quais condi&#231;&#245;es permitiram ao Brasil, no intervalo entre a crise mundial capitalista dos anos 1930 e as primeiras d&#233;cadas do p&#243;s-guerra, passar de um pa&#237;s eminentemente agr&#237;cola a um pa&#237;s ainda atrasado, mas com um de-senvolvimento industrial significativo. O papel da pol&#237;tica externa de Vargas de jogar com as brechas interimperialistas, alinhando-se primeiro com o Eixo, em particular com a It&#225;lia, e mais tarde com os EUA, foi chave para o in&#237;cio desse processo, assim como o foi o aproveitamento das condi&#231;&#245;es do chamado &#8220;boom&#8221; econ&#244;mico do p&#243;s-Segunda Guerra. Se partimos dessa explica&#231;&#227;o, vemos que n&#227;o se trata tanto de uma quest&#227;o de desenvolvimento tecnol&#243;gico como a das patentes, mas sim de que hoje, nas condi&#231;&#245;es de crise estrutural capitalista, decl&#237;nio da hegemonia norte-americana e aus&#234;ncia de um bloco competidor capaz de se al&#231;ar ao posto de novo l&#237;der hege-m&#244;nico, n&#227;o existem brechas significativas para o desenvolvimento capitalista na periferia (ainda que sim haja para a recupera&#231;&#227;o do movimento oper&#225;rio). Mais ainda, os anos de ofensiva imperialista &#8220;neoliberal&#8221; significaram um enorme avan&#231;o na do-mina&#231;&#227;o direta das economias da periferia pelos pa&#237;ses imperialistas centrais, atrav&#233;s dos mecanismos da penetra&#231;&#227;o direta das transnacionais, em muitos casos via pri-vatiza&#231;&#227;o de empresas estatais ligadas a ramos estrat&#233;gicos da economia, assim co-mo pela camisa de for&#231;a da d&#237;vida externa, que durante esses anos saltou a patamares in&#233;ditos e acarretou um atrelamento direto das pol&#237;ticas econ&#244;micas &#8220;nacionais&#8221; aos interesses do capital financeiro internacional. Essa &#233; uma base material indiscut&#237;vel para a transforma&#231;&#227;o de muitos social-democratas de ontem em neoliberais de hoje, como ilustra a ret&#243;rica da pol&#237;tica externa de Lula que n&#227;o consegue ir al&#233;m disso, isto &#233;, uma ret&#243;rica vazia ligada a um atrelamento &#237;mpar ao imperialismo. Nesse marco &#233; que o fato de colocar as patentes como elemento central, n&#227;o &#233; um mero acaso, mas uma simplifica&#231;&#227;o unilateral da realidade, que impede ver o conjunto das rela&#231;&#245;es existentes, expressando uma concep&#231;&#227;o que poder&#237;amos chamar de &#8220;determinista tecnol&#243;gica&#8221;. Desse modo, a opress&#227;o imperialista &#233; reduzida &#227; quest&#227;o, importante, por&#233;m absolutamente parcial, da possibilidade ou n&#227;o de acesso &#227; tecnologia.23&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dizemos isso porque, despida de sua &#8220;insuport&#225;vel unilateralidade&#8221;, a an&#225;lise aponta corretamente os mecanismos que impedem que os pa&#237;ses chamados &#8220;emer-gentes&#8221; como o Brasil terminem de emergir, pela necessidade de investimento intensivo de capital que s&#243; pode ser alcan&#231;ado reiterando a depend&#234;ncia e subordina&#231;&#227;o ex-terna.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os pa&#237;ses ou sistemas capitalistas subnacionais perif&#233;ricos podem apenas copiar o descart&#225;vel, mas n&#227;o copiar a matriz da unidade t&#233;cnico-cient&#237;fica... a acumula&#231;&#227;o que se realiza em termos de c&#243;pia do descart&#225;vel tamb&#233;m entra em obsolesc&#234;ncia acelerada, e nada sobra dela... Isso exige um esfor&#231;o de in-vestimento sempre al&#233;m do limite das for&#231;as internas de acumula&#231;&#227;o, o que reitera os mecanismos de depend&#234;ncia financeira externa... Em termos bastante utilizados pelos cepalinos, a rela&#231;&#227;o produto-capital se deteriora: para obter cada vez menos produto, faz-se necess&#225;rio cada vez mais capital. 24&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Justamente devido a esses limites, a quest&#227;o do desenvolvimento tecnol&#243;gico na periferia capitalista n&#227;o pode ser vista de um ponto de vista evolutivo ou linear. Pelo contr&#225;rio, assinalada a debilidade da burguesia nacional para lutar contra o im-perialismo, e estabelecido o papel de lideran&#231;a do proletariado nesse combate, &#233; pre-ciso reconhecer que toda revolu&#231;&#227;o prolet&#225;ria no terreno nacional num pa&#237;s da periferia aposta no desenvolvimento do processo revolucion&#225;rio nos pa&#237;ses imperialistas, e em que o proletariado dos mesmos venha em seu &#8220;aux&#237;lio&#8221; trazendo o mais avan&#231;ado da t&#233;cnica. Por isso, para al&#233;m de apoiar os passos dados pelas na&#231;&#245;es oprimidas e, evidentemente, por qualquer Estado oper&#225;rio, no sentido de alcan&#231;ar desenvolvi-mentos t&#233;cnicos e cient&#237;ficos independentes e de comemorar qualquer &#234;xito econ&#244;-mico epis&#243;dico, sabemos que n&#227;o h&#225; possibilidade de supera&#231;&#227;o por via evolutiva dos recursos de que o imperialismo disp&#245;e, como mostraram n&#227;o s&#243; a reconvers&#227;o dos desenvolvimentistas de ontem em neoliberais de hoje, como tamb&#233;m a crise da pr&#243;pria Uni&#227;o Sovi&#233;tica e dos sonhos dos burocratas de superar o capitalismo pela via econ&#244;mica, sem necessidade de alentar a revolu&#231;&#227;o prolet&#225;ria internacional. Por isso a estrat&#233;gia prolet&#225;ria internacionalista &#233; n&#227;o apenas a via mais econ&#244;mica, co-mo de fato a &#250;nica realista e poss&#237;vel.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Num texto escrito pouco mais de um ano ap&#243;s a tomada do poder pelos bol-cheviques, Trotsky afirmava:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;a ditadura da classe oper&#225;ria russa poder&#225; fortalecer-se e levar a cabo uma ge-nu&#237;na constru&#231;&#227;o socialista em toda a linha, s&#243; a partir do momento em que a classe oper&#225;ria europ&#233;ia nos livre do jugo econ&#244;mico e, especialmente, do mi-litar, da burguesia europ&#233;ia, quando j&#225; derrubada esta, venha em nossa ajuda com sua organiza&#231;&#227;o e sua tecnologia. Ao mesmo tempo, o principal papel re-volucion&#225;rio ser&#225; transferido &#227; classe oper&#225;ria com maior poder econ&#244;mico e organizativo.25&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Assim, a contribui&#231;&#227;o do proletariado dos pa&#237;ses avan&#231;ados n&#227;o se limita &#227; ta-refa democr&#225;tica important&#237;ssima de livrar o pa&#237;s atrasado do jugo econ&#244;mico colocado pela pesada carga das d&#237;vidas com rela&#231;&#227;o aos pa&#237;ses centrais. H&#225;, com efeito, um se-gundo aspecto, uma contribui&#231;&#227;o &#8220;tecnol&#243;gica&#8221;, quando com sua t&#233;cnica avan&#231;ada ajuda a superar mais rapidamente o atraso, evitando assim o surgimento da burocracia ou da restaura&#231;&#227;o pura e simples. N&#227;o foi por internacionalismo abstrato que os bol-cheviques lutaram tanto pela revolu&#231;&#227;o socialista na Alemanha.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por outro lado, a incapacidade de romper de maneira irreconcili&#225;vel com toda variante do ponto de vista burgu&#234;s veda a possibilidade de uma tal perspectiva inter-nacionalista prolet&#225;ria, e leva a que se veja a rela&#231;&#227;o com o imperialismo como rela-&#231;&#227;o com um &#8220;advers&#225;rio-aliado&#8221;, mas n&#227;o claramente como inimigo: como fonte de conhecimento e avan&#231;o, por um lado, e por outro como obst&#225;culo &#227; aquisi&#231;&#227;o desse conhecimento. Essa concep&#231;&#227;o caminha lado a lado com seu esfor&#231;o por encontrar uma resolu&#231;&#227;o para as contradi&#231;&#245;es do capitalismo brasileiro por dentro desse mesmo capitalismo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Perspectivas te&#243;ricas e ferramentas pol&#237;ticas&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Francisco de Oliveira se move do ponto de vista te&#243;rico no espa&#231;o aberto a par-tir da formula&#231;&#227;o geral do Imperialismo de L&#234;nin, com a refer&#234;ncia de an&#225;lise concreta de uma forma&#231;&#227;o social contida no Desenvolvimento do Capitalismo na R&#250;ssia, e fugindo do esquematismo stalinista e das diversas variantes evolucionistas e duais burguesas, busca concretizar a an&#225;lise econ&#244;mica marxista do Brasil. At&#233; a&#237;, vai bem26. O problema &#233; preencher essa lacuna com Furtados27 e Prebisches28. Para Celso Furtado, as ferramentas de transforma&#231;&#227;o s&#227;o o Banco Nacional para o Desenvolvi-mento Econ&#244;mico (BNDE), o Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nor-deste (GTDN), a Sudene (Superintend&#234;ncia para o Desenvolvimento do Nordeste), o Minist&#233;rio do Planejamento etc29. Isto &#233;, s&#227;o as armas do aparato estatal capitalista, as ag&#234;ncias para elabora&#231;&#227;o e execu&#231;&#227;o das pol&#237;ticas nacional-desenvolvimentistas. At&#233; porque, como afirma Francisco de Oliveira:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#8220;a proposi&#231;&#227;o de Furtado e da Cepal converte-se na mais poderosa ideologia industrialista e, ao contr&#225;rio do destino de muitas ideologias, influencia e determina pol&#237;ticas concretas, agendas de a&#231;&#227;o de v&#225;rios governos latino-americanos&#8221;.30&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O problema &#233; que Oliveira n&#227;o consegue resistir ao duvidoso poder de sedu&#231;&#227;o dessa mesma &#8220;poderosa ideologia&#8221;. Por isso afirma: &#8220;A singularidade do subdesen-volvimento poderia ser resolvida n&#227;o-evolucionisticamente a partir de suas pr&#243;prias contradi&#231;&#245;es, &#227; condi&#231;&#227;o de que a vontade das classes soubesse aproveitar a &#8220;riqueza da iniq&#252;idade&#8221; [vantagem do atraso desfigurada?] de ser periferia.&#8221; A &#8220;vontade das classes&#8221;, como indica o pref&#225;cio de Roberto Schwarz ao ensaio31, &#233; a f&#243;rmula em que se depositam as esperan&#231;as do autor. Note-se que h&#225; uma divis&#227;o de tarefas quase perfeita entre os distintos sujeitos no interior dessa f&#243;rmula: aos camponeses caberia lutar pela reforma agr&#225;ria; aos trabalhadores, organizarem-se para conquistar a dimi-nui&#231;&#227;o da superexplora&#231;&#227;o; aos capitalistas, o papel hegem&#244;nico, n&#227;o s&#243; de conceder a uns e outros, mas de encabe&#231;ar propriamente o &#8220;projeto nacional&#8221;, em particular por meio da aquisi&#231;&#227;o dos &#8220;meios t&#233;cnicos modernos&#8221;. Nas palavras do autor:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A inser&#231;&#227;o na divis&#227;o internacional do trabalho capitalista, reiterada a cada ciclo de moderniza&#231;&#227;o, propiciaria os meios t&#233;cnicos modernos, capazes de fazer &#8220;queimar etapas&#8221;, como os per&#237;odos Vargas e Kubitschek mostraram. O crescimento da organiza&#231;&#227;o dos trabalhadores poderia levar &#224; liquida&#231;&#227;o da alta explora&#231;&#227;o propiciada pelo custo rebaixado da for&#231;a de trabalho. A reforma agr&#225;ria poderia liquidar tanto com a fonte fornecedora do &#8220;ex&#233;rcito de reserva&#8221; das cidades quanto o poder patrimonialista. Mas faltou o outro lado, isto &#233;, que o projeto emancipador fosse compartilhado pela burguesia nacional (!!!), o que n&#227;o se deu. Ao contr&#225;rio, ela voltou as costas &#227; alian&#231;a com as classes subordinadas, ela mesma j&#225; bastante enfraquecida pela invas&#227;o de seu reduto de poder de classe pela crescente internacionaliza&#231;&#227;o da propriedade indus-trial, sobretudo nos ramos nov&#237;ssimos.32&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Apenas restaria dizer que essa ilus&#227;o sustentada na burguesia brasileira se completou durante os anos no PT em algo que poder&#237;amos chamar uma &#8220;dupla ilu-s&#227;o&#8221; de Francisco de Oliveira: de um lado, na capacidade dirigente da burguesia, do outro, no projeto social-democrata. O PT seria o agente dessa converg&#234;ncia, e ver-dadeiro &#8220;demiurgo&#8221; (para usar uma express&#227;o cara ao autor) da na&#231;&#227;o brasileira. N&#227;o &#233; de se estranhar que, dado esse papel para o partido que carrega seu nome, aos tra-balhadores n&#227;o fosse reservado nesse esquema um papel maior do que o de fazer a press&#227;o necess&#225;ria para que o am&#225;lgama se produzisse.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Infelizmente n&#227;o podemos deixar de criticar duramente tais posicionamentos. Como marxistas revolucion&#225;rios, nossa luta &#233; para construir as ferramentas pr&#243;prias da classe trabalhadora, adequadas a cada momento hist&#243;rico, para justamente se contrapor tanto aos aparatos criados pela burguesia, como tamb&#233;m aos que tentam se erguer como conciliadores dos antagonismos de classe, como o PT. De onde pode partir um marxista para tentar materializar suas id&#233;ias de transforma&#231;&#227;o social? Entre a admira&#231;&#227;o pelo trabalho desenvolvido por Furtado &#227; frente dessas institui&#231;&#245;es, e seu pr&#243;prio trabalho no Cenedic (e indiretamente no PT), Francisco de Oliveira passa longe de buscar um instrumento efetivo para a &#8220;irrup&#231;&#227;o dos trabalhadores nas decis&#245;es sobre seus destinos&#8221;. At&#233; porque, como tentamos demonstrar, n&#227;o existe para ele a possibilidade de que os trabalhadores realizem uma a&#231;&#227;o hist&#243;rica inde-pendente33.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Avan&#231;o tecnol&#243;gico e estrutura de classes&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para Francisco de Oliveira, os avan&#231;os t&#233;cnicos e cient&#237;ficos dos &#250;ltimos anos levaram a uma reconfigura&#231;&#227;o completa da sociedade brasileira. Sobre a situa&#231;&#227;o atual e as perspectivas do Brasil, &#233; assim que se expressa Oliveira: &#8220;Como &#233; o ornitor-rinco? Altamente urbanizado, pouca for&#231;a de trabalho e popula&#231;&#227;o no campo, dunque nenhum res&#237;duo pr&#233;-capitalista; ao contr&#225;rio, um forte agrobusiness&#8221;. Por&#233;m, levando assim o desenvolvimento do agrobusiness como tend&#234;ncia at&#233; o final, n&#227;o pode ex-plicar nem mesmo o MST, que &#233; organizado, e muito menos o conjunto da situa&#231;&#227;o no campo, onde existem regi&#245;es, em particular no Nordeste e no Norte, onde o atraso est&#225; t&#227;o longe do agrobusiness como da luta organizada pela terra. Aqui n&#227;o h&#225;, na an&#225;lise de Francisco de Oliveira, desenvolvimento desigual e combinado. Dando se-q&#252;&#234;ncia ao trecho citado, prossegue ele com sua descri&#231;&#227;o: &#8220;Um setor industrial da Segunda Revolu&#231;&#227;o Industrial completo, avan&#231;ando, tatibitate, pela Terceira Revo-lu&#231;&#227;o, a molecular-digital ou inform&#225;tica&#8221;. Ou seja, exageros para ambos os lados, pois ainda que possua um desenvolvimento industrial significativo, seria dif&#237;cil defender que o Brasil apresente um setor industrial &#8220;da Segunda Revolu&#231;&#227;o Industrial&#8221; completo; por outro lado, se exagera no impacto negativo da &#8220;Terceira&#8221;: &#8220;Avassalada pela Terceira Revolu&#231;&#227;o Industrial, ou molecular-digital, em combina&#231;&#227;o com o mo-vimento da mundializa&#231;&#227;o do capital, a produtividade do trabalho d&#225; um salto mortal em dire&#231;&#227;o &#227; plenitude do trabalho abstrato&#8221;.34 A an&#225;lise da &#8220;Terceira Revolu&#231;&#227;o In-dustrial&#8221; &#233; uma mostra do t&#237;pico pensamento acad&#234;mico que pensa os fen&#244;menos numa s&#243; dire&#231;&#227;o, unilateral e homog&#234;nea, e n&#227;o desigual e combinada; Francisco de Oliveira abandona a&#237; sua tentativa de contemplar essa lei dial&#233;tica. Pior, com a &#234;nfase na suposta &#8220;plenitude&#8221; do trabalho abstrato, preenche esse vazio com os mais surrados clich&#234;s do p&#243;s-modernismo. Dado que n&#227;o nos debru&#231;aremos aqui sobre essa ques-t&#227;o, basta assinalar que as teses sobre a hegemonia do trabalho imaterial (ou a &#8220;pleni-tude do trabalho abstrato&#8221;), de uma maneira geral, contribui para ocultar as recon-figura&#231;&#245;es reais da situa&#231;&#227;o da classe trabalhadora, em benef&#237;cio de vis&#245;es que ten-dem a dar ao processo de valoriza&#231;&#227;o do capital uma independ&#234;ncia com respeito ao trabalho assalariado que &#233; totalmente fict&#237;cia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como n&#227;o denunciar como unilateral uma an&#225;lise que pretende que o mercado informal e o setor de servi&#231;os teriam &#8220;engolido&#8221; a ind&#250;stria e o trabalho assalariado, quando numa popula&#231;&#227;o economicamente ativa de cerca de 80 milh&#245;es, h&#225; nada me-nos que 40 milh&#245;es de assalariados? A an&#225;lise de Oliveira tende a vincular-se com os te&#243;ricos do Welfare, na medida em que ele v&#234; apenas os direitos e benef&#237;cios do tra-balhador e a legisla&#231;&#227;o trabalhista que o sustenta como maneira de mensura&#231;&#227;o do n&#237;vel de configura&#231;&#227;o e for&#231;a pol&#237;tica da classe trabalhadora. Isso leva Francisco de Oliveira a n&#227;o enxergar o setor informal como parte da classe e negar a possibilidade de uma uni&#227;o entre assalariados, informais e desempregados.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o &#233; evidente, por exemplo, que o crescimento do setor terci&#225;rio n&#227;o pode apoiar-se nas nuvens, e que por isso &#233; maior precisamente ali onde historicamente houve maior desenvolvimento industrial? Por outro lado, esse mesmo crescimento, longe de negar a pot&#234;ncia da classe trabalhadora, mostra uma amplia&#231;&#227;o da esfera das atividades humanas penetradas pela rela&#231;&#227;o de assalariamento. Por&#233;m essa &#233; a realidade brasileira que Francisco de Oliveira n&#227;o v&#234;. Tendo se industrializado nas condi&#231;&#245;es descritas na CRD, o Brasil, no m&#237;nimo, pode regozijar-se de haver atra-vessado os sombrios anos noventa sem atingir o fosso da desindustrializa&#231;&#227;o. Houve privatiza&#231;&#245;es, precariza&#231;&#227;o do trabalho, quebras de todo tipo e anos de estagna&#231;&#227;o capitalista, o que agravou enormemente as condi&#231;&#245;es de opress&#227;o econ&#244;mica sobre a classe oper&#225;ria e o conjunto dos explorados, por&#233;m ela est&#225; longe, muito longe, de haver sido dizimada, de haver perdido sua pot&#234;ncia social.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;O papel da &#8220;nova classe&#8221; na nova tentativa de explica&#231;&#227;o&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta tese segue a anterior: se todo horizonte de transforma&#231;&#227;o social &#233; visto em completa depend&#234;ncia da iniciativa burguesa, a pot&#234;ncia subjetiva das classes tra-balhadoras &#233; reduzida a nada e, assim, as distin&#231;&#245;es vitais entre classe e dire&#231;&#227;o e o processo tr&#225;gico atrav&#233;s do qual camarilhas pequeno-burguesas puderam apoiar-se na m&#225;quina partid&#225;ria para se elevar por sobre a classe oper&#225;ria, sem quase resist&#234;ncia da esquerda, s&#227;o reduzidos a um mero automatismo econ&#244;mico, em que as mudan&#231;as estruturais, vistas pela &#243;tica das unilateralidades descritas, se condensam repenti-namente em uma &#8220;nova classe&#8221;, cuja descri&#231;&#227;o, antes de explicar, obscurece o ver-dadeiro papel do PT como dire&#231;&#227;o traidora da classe.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Conv&#233;m iniciar aqui pela vis&#227;o de Francisco de Oliveira sobre os objetivos da organiza&#231;&#227;o dos trabalhadores:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;a organiza&#231;&#227;o dos trabalhadores poderia operar a transforma&#231;&#227;o da estrutura desigualit&#225;ria da distribui&#231;&#227;o da renda, tal como ocorreu nos subsistemas na-cionais europeus do Welfare State... A eclos&#227;o dos grandes movimentos sin-dicais nos anos 1970, de que resultou, em grande medida, o Partido dos Tra-balhadores, parecia indicar um caminho &#8220;europeu&#8221;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta abordagem de Francisco de Oliveira &#233; t&#237;pica dos te&#243;ricos da social-democracia derrotados com o avan&#231;o do neoliberalismo, pois acreditavam na possibilidade (utopia reacion&#225;ria) de uma economia planejada nos moldes keynesianos para melhorar o ca-pitalismo decadente, viabilizando isto atrav&#233;s da disputa no interior da democracia burguesa (lembremos que Francisco de Oliveira sempre foi adepto da luta parlamentar e da pol&#237;tica do voto, marca hist&#243;rica do PT). Deste modo, hoje se v&#234;em obrigados a um derrotismo falso, pois nunca colocaram a necessidade de uma dire&#231;&#227;o revolucio-n&#225;ria e de independ&#234;ncia de classe para os trabalhadores lutarem contra a dita &#8220;ofen-siva&#8221; da Terceira Revolu&#231;&#227;o Industrial t&#233;cnico-cient&#237;fica, j&#225; que o desenvolvimento das for&#231;as produtivas n&#227;o &#233; um processo absolutamente aut&#244;nomo, nem &#233; seu resultado independente da luta de classes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para Oliveira, entretanto, o PT aparecia como grande ve&#237;culo para que a classe atingisse estes (incrivelmente modestos) objetivos. O problema surgiria ent&#227;o depois, quando:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esse movimento deteve-se nos anos 1980 e entrou em franca regress&#227;o a par-tir dali. As for&#231;as do trabalho j&#225; n&#227;o t&#234;m &#8220;for&#231;a&#8221; social, erodida pela reestru-tura&#231;&#227;o produtiva e pelo trabalho abstrato-virtual e &#8220;for&#231;a&#8221; pol&#237;tica, posto que dificilmente tais mudan&#231;as na base t&#233;cnico-material deixariam de repercutir na forma&#231;&#227;o da classe.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Seria interessante notar ao longo do &#8220;Ornitorrinco&#8221;, principalmente na parte fi-nal do artigo, a recorr&#234;ncia sistem&#225;tica de Francisco de Oliveira em enxergar uma im-pot&#234;ncia nos setores dos trabalhadores em travar uma luta decidida contra o capital financeiro; esta &#233; uma vis&#227;o que cede terreno para a direita conservadora que argu-menta tendo como par&#226;metro a chamada &#8220;sociedade p&#243;s-industrial&#8221;, que vem levando a fragmenta&#231;&#245;es na unidade do trabalho.35 Esta abordagem consta na argumenta&#231;&#227;o de um dos principais te&#243;ricos da p&#243;s-modernidade, Lyotard, e de tantos outros, em sua critica ao marxismo e ao sujeito revolucion&#225;rio da transforma&#231;&#227;o, o proletariado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A opera&#231;&#227;o ideol&#243;gica que denunciamos no dossi&#234; te&#243;rico publicado nesta edi-&#231;&#227;o, que tenta demonstrar que os fundamentos estruturais da estrat&#233;gia marxista se modificaram, est&#225; completamente presente no &#8220;Ornitorrinco&#8221;. Da&#237; nossa tese de que entre 1972 e 2003 houve uma gritante regress&#227;o te&#243;rica do autor. De fato, Francisco de Oliveira, como diversos outros autores que fizeram parte da moda acad&#234;mica dos anos 1980 e 1990, se ap&#243;ia nas derrotas pol&#237;ticas da classe oper&#225;ria para &#8220;naturalizar as condi&#231;&#245;es emergentes da ofensiva capitalista&#8221;, com o detalhe de fechar os olhos para o papel das dire&#231;&#245;es petistas nessas derrotas: &#8220;A representa&#231;&#227;o de classe per-de sua base e o poder pol&#237;tico a partir dela se estiola&#8221;. N&#227;o h&#225; como negar que tal con-cep&#231;&#227;o, ao diminuir a autonomia relativa da esfera pol&#237;tica, nega o papel consciente dessas dire&#231;&#245;es.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Explicando mais sua tese, Oliveira prossegue:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;a estrutura de classes tamb&#233;m foi truncada ou modificada: as capas mais altas do antigo proletariado converteram-se... [em] administradores de fundos de previd&#234;ncia complementar... fazem parte de conselhos de administra&#231;&#227;o, como o do BNDES, a t&#237;tulo de representantes dos trabalhadores (...) &#201; isso que explica recentes converg&#234;ncias pragm&#225;ticas entre o PT e o PSDB, o apa-rente paradoxo de que o governo Lula realiza o programa de FHC, radicalizando-o: n&#227;o se trata de equ&#237;voco, nem de tomada de empr&#233;stimo de programa, mas de uma verdadeira nova classe social, que se estrutura sobre, de um lado, t&#233;cnicos e economistas doubl&#233;s de banqueiros, n&#250;cleo duro do PSDB, e trabalhadores transformados em operadores de fundo de previd&#234;ncia, n&#250;cleo duro do PT.36&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para que n&#227;o se possa dizer que exageramos a import&#226;ncia dada &#227; discuss&#227;o, o pr&#243;prio autor faz o paralelo direto com um dos defensores da teoria que via uma nova classe na burocracia da URSS, como &#233; o caso de Milovan Djilas.37&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Francisco de Oliveira comete aqui o mesmo erro de todos os &#8220;descobridores de &#8216;novas classes'&#8221;, o qual consiste em deixar de apontar a que classe real servem de instrumento essas camadas, que pontualmente em momentos espec&#237;ficos, cumprem um papel transit&#243;rio de destaque. Esse tipo de racioc&#237;nio se assemelha &#224; quele de-fendido por James Burnham (um ex-dirigente do SWP norte-americano nos anos 30, que logo rompeu com o trotskismo e o marxismo em 1938) acerca da &#8220;revolu&#231;&#227;o dos managers&#8221;, querendo ver uma nova classe dominante onde n&#227;o havia, confundindo aqueles que administram a servi&#231;o do capital com os pr&#243;prios capitalistas, a quem a &#8220;teoria&#8221; da &#8220;nova classe&#8221; deixa num c&#244;modo segundo plano. Aqui tamb&#233;m n&#227;o seria necess&#225;ria a ci&#234;ncia, se n&#227;o fosse para desvendar, sob aquilo que &#233; ruidoso e ef&#234;mero, o que h&#225; de silencioso e estrutural. Trotsky, que em seu momento combateu as fala-ciosas teses de Burnham, deixava claro que o papel, tanto dos administradores pro-fissionais como das burocracias d&#243;ceis (que s&#227;o seu perfeito correlato), &#233; o de ins-trumento do grande capital:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#8220;O imperialismo capitalista pode tolerar (at&#233; certo ponto) uma burocracia re-formista, sempre que esta funcione como um acionista, pequeno, por&#233;m ativo, de suas empresas imperialistas, e de seus planos e programas tanto dentro do pa&#237;s como em escala mundial&#8221;.38&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Negando-se a ver essa realidade, Oliveira prossegue em seu procedimento que, para al&#233;m da intencionalidade ou n&#227;o de prop&#243;sitos, ajuda a justificar o papel da dire-&#231;&#227;o do PT:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A nova classe tem unidade de objetivos, formou-se no consenso ideol&#243;gico sobre a nova fun&#231;&#227;o do Estado, trabalha no interior dos controles de fundos estatais e semiestatais e est&#225; no lugar que faz a ponte com o sistema financeiro. Aqui n&#227;o se trata de condena&#231;&#227;o moral, mas de encontrar as raz&#245;es para o que, para muitos, parece uma converg&#234;ncia de contr&#225;rios despropositada e atentat&#243;ria contra os princ&#237;pios do Partido dos Trabalhadores.39&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Seguramente n&#227;o se trata de condena&#231;&#227;o moral, mas tamb&#233;m n&#227;o se pode cair numa tentativa de justifica&#231;&#227;o moral daquilo que &#233; injustific&#225;vel, ainda mais quando deveria tratar-se de uma luta pol&#237;tica encarni&#231;ada. Sobre isso, Trotsky, por exemplo, afirmava:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O papel dos sindicatos em nosso tempo &#233;, pois, ou o de servir como instru-mento secund&#225;rio do capitalismo imperialista para subordinar e disciplinar os oper&#225;rios e para impedir a revolu&#231;&#227;o, ou, pelo contr&#225;rio, transformar-se nas ferramentas do movimento revolucion&#225;rio do proletariado.40&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A quest&#227;o de fundo &#233; que Francisco de Oliveira confunde a classe com suas di-re&#231;&#245;es pol&#237;ticas e sindicais. Por&#233;m, se fazer isso seria cometer um grave erro metodo-l&#243;gico, com grandes conseq&#252;&#234;ncias pol&#237;ticas, durante todo o intervalo entre os anos 1980 e 2002, na atual situa&#231;&#227;o em que o descolamento entre a dire&#231;&#227;o do PT e a buro-cracia sindical, por um lado, e o conjunto da classe e seus interesses, tanto imediatos quanto hist&#243;ricos, por outro, j&#225; beira o absurdo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Referindo-se ao exemplo da burocracia sindical mexicana, no tempo das na-cionaliza&#231;&#245;es das petrol&#237;feras inglesas pelo general C&#225;rdenas, dizia Trotsky:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A administra&#231;&#227;o das estradas de ferro, campos petrol&#237;feros etc, por meio de organiza&#231;&#245;es oper&#225;rias, n&#227;o t&#234;m nada a ver com o controle oper&#225;rio sobre a ind&#250;stria, pois a ess&#234;ncia da quest&#227;o nesta administra&#231;&#227;o &#233; que se realiza por meio da burocracia trabalhista que &#233; independente dos oper&#225;rios, mas que ao contr&#225;rio, depende completamente do Estado burgu&#234;s. Esta medida por parte da classe dominante persegue o objetivo de disciplinar a classe oper&#225;ria.41&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ou seja, n&#227;o &#233; novidade o uso dos instrumentos de representa&#231;&#227;o de classe dos trabalhadores pela burguesia, contra os pr&#243;prios trabalhadores.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pelo contr&#225;rio, o fato de que os pr&#243;prios instrumentos dos trabalhadores sejam usados pela burguesia para atac&#225;-los, apenas refor&#231;a a necessidade de que a luta destes se torne mais implac&#225;vel, como prossegue o revolucion&#225;rio russo:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em tais condi&#231;&#245;es, a tarefa da vanguarda revolucion&#225;ria consiste em empre-ender a luta pela completa independ&#234;ncia dos sindicatos e pela cria&#231;&#227;o de um verdadeiro controle oper&#225;rio sobre a atual burocracia sindical, que foi trans-formada em administradora das estradas de ferro, das empresas petrol&#237;feras e outras. (...) Na realidade, a independ&#234;ncia de classe dos sindicatos quanto &#225;s suas rela&#231;&#245;es com o Estado burgu&#234;s, somente pode garanti-la, nas condi&#231;&#245;es atuais, uma dire&#231;&#227;o revolucion&#225;ria.42&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o &#233; &#227; toa que, ao n&#227;o fazer essa diferencia&#231;&#227;o entre o conjunto da classe e as parcelas minorit&#225;rias que se descolam dela para cumprir o papel de agente inimigo, Francisco de Oliveira avan&#231;a para formula&#231;&#245;es que imputam de alguma maneira &#227; classe em seu conjunto a responsabilidade pelas derrotas e trai&#231;&#245;es, chegando assim a defender a tese de que existiria um processo em curso de &#8220;decomposi&#231;&#227;o da classe trabalhadora&#8221;. Essa conclus&#227;o escandalosa &#233; obtida partindo de um am&#225;lgama entre inova&#231;&#245;es tecnol&#243;gicas, precariza&#231;&#227;o do trabalho e trai&#231;&#227;o pol&#237;tica (agora aberta) do PT e da burocracia cutista, e desse aglomerado desforme tentando tirar a conclus&#227;o de que a classe estaria se &#8220;decompondo&#8221;, quando se trata precisamente do contr&#225;rio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No fim das contas, o que poderia ser um valioso aporte no sentido de identificar as ra&#237;zes &#8220;sociol&#243;gicas&#8221; para a consolida&#231;&#227;o da oposi&#231;&#227;o de interesses entre as ca-marilhas sindicais e a base dos trabalhadores, com o efeito pol&#237;tico de contribuir para a organiza&#231;&#227;o dos trabalhadores para o combate que tal oposi&#231;&#227;o projeta, termina distorcido dentro do esquema montado, como se de repente o interesse maior do tra-balhador comum fosse a valoriza&#231;&#227;o financeira de tal ou qual fundo de pens&#227;o de sua empresa, quando na verdade essa &#233; uma quest&#227;o residual, que n&#227;o comp&#245;e o campo de interesses, nem imediatos nem futuros, dos setores mais amplos da classe e &#233;, pe-lo contr&#225;rio, um objeto principal de aten&#231;&#227;o e interesse apenas para uma parcela ultra reduzida de burocratas sindicais. &#201; isso que Oliveira n&#227;o reconhece quando afirma: &#8220;Trabalhadores que ascendem a essas fun&#231;&#245;es est&#227;o preocupados com a rentabi-lidade de tais fundos, que ao mesmo tempo financiam a reestrutura&#231;&#227;o produtiva que produz desemprego&#8221;. Pois justamente se trata aqui de denunciar que nesse caso j&#225; n&#227;o se trata mais de &#8220;trabalhadores&#8221;, mas de agentes do capital no interior da classe trabalhadora.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Conclus&#227;o: que perspectiva para a na&#231;&#227;o semicolonial brasileira?&lt;br class='autobr' /&gt;
&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao longo deste artigo, procuramos chamar a aten&#231;&#227;o para uma s&#233;rie de incon-sist&#234;ncias te&#243;ricas na obra de Oliveira. Agora cabe perguntar: a que perspectiva futura elas nos levam? N&#227;o h&#225; na pr&#243;pria express&#227;o escolhida para nomear o ensaio -&#8221;or-nitorrinco&#8221;, animal evocado por seu car&#225;ter esdr&#250;xulo, extravagante, at&#237;pico etc. - uma esp&#233;cie de ironia amargurada?43 A desilus&#227;o que subjaz aqui decorre do fato de que, no fundo, Francisco de Oliveira sempre colocou o grosso de suas esperan&#231;as em sua aposta na burguesia e quase se igualaria a H&#233;lio Jaguaribe nesse aspecto, se n&#227;o fosse porque hoje, sem que sua f&#233; na vit&#243;ria dos trabalhadores tenha aumentado em nada, se tornou igualmente pessimista sobre o papel que pode desempenhar a burguesia bra-sileira. &#201; com esse tom que o ensaio finaliza:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O ornitorrinco &#233; isso: n&#227;o h&#225; possibilidade de permanecer como subdesen-volvido e aproveitar as brechas que a Segunda Revolu&#231;&#227;o Industrial pro-piciava; n&#227;o h&#225; possibilidade de avan&#231;ar no sentido da acumula&#231;&#227;o digital-molecular... O ornitorrinco est&#225; condenado a submeter tudo &#227; voracidade da financeiriza&#231;&#227;o, uma esp&#233;cie de &#8220;buraco negro&#8221;: agora ser&#225; a previd&#234;ncia so-cial, mas isso o privar&#225; exatamente de redistribuir a renda e criar um novo mer-cado que sentaria as bases para a acumula&#231;&#227;o digital-molecular. O ornitorrinco capitalista &#233; uma acumula&#231;&#227;o truncada e uma sociedade desigualit&#225;ria sem re-miss&#227;o. Vivam Marx e Darwin: a periferia capitalista finalmente os uniu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esse &#233; o beco sem sa&#237;da de um pensamento caudat&#225;rio da iniciativa burguesa, que apesar de suas aproxima&#231;&#245;es com o marxismo, n&#227;o p&#244;de ligar-se &#227; perspectiva concreta da classe oper&#225;ria, e assim n&#227;o chega e nem pode chegar a desenvolver co-mo perspectiva um plano independente de reorganiza&#231;&#227;o social, e menos uma estra-t&#233;gia independente capaz de levar a esse objetivo, ligando meios e fins.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; por isso que para esse pensamento n&#227;o h&#225; nada na &#233;poca atual al&#233;m de um ho-rizonte de resigna&#231;&#227;o amarga, de l&#225;stima pela convers&#227;o definitiva em &#8220;ornitorrinco&#8221; social, quando do que se trata &#233; justamente do contr&#225;rio, isto &#233;, de que em meio a essa mis&#233;ria escrupulosamente constru&#237;da e reconstru&#237;da ao longo de d&#233;cadas pela bur-guesia nacional, p&#244;de se conformar, com mil e uma desigualdades e clivagens internas, um proletariado poderoso, distribu&#237;do numa produ&#231;&#227;o econ&#244;mica diversificada e rela-tivamente desenvolvida, concentrado em grandes centros urbanos, e com um setor oper&#225;rio industrial consider&#225;vel em diversos ramos como os metal&#250;rgicos, petroleiros, qu&#237;micos etc, e que conformam grandes parques industriais em estados como S&#227;o Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Rio Grande do Sul. Essa &#233; uma realidade que nem a voracidade da ofensiva neoliberal transformou essencialmente e que faz da classe oper&#225;ria no Brasil uma pot&#234;ncia que imp&#245;e seu peso objetivamente. A grande quest&#227;o para os marxistas &#233;, portanto, como fazer com que essa potencialidade se desenvolva concretamente do ponto de vista subjetivo, isto &#233;, com rela&#231;&#227;o &#227; sua capa-cidade de organizar-se a si mesma como sujeito independente. Nesse sentido cabe ape-nas apontar que hoje vivemos, tanto no plano imediato como principalmente desde uma perspectiva mais hist&#243;rica, momentos de in&#237;cio de recupera&#231;&#227;o oper&#225;ria e popular no pa&#237;s, em particular com a experi&#234;ncia hist&#243;rica com a dire&#231;&#227;o petista.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Porque nos separamos completamente de Francisco de Oliveira nessa quest&#227;o, e porque est&#225; viva nossa confian&#231;a no potencial transformador dos trabalhadores organizados enquanto classe, defendemos hoje a constru&#231;&#227;o de um Partido Oper&#225;rio Independente, baseado nos sindicatos e controlado atrav&#233;s destes pela base dos trabalhadores por meio de seus organismos de democracia direta, e oposto frontal-mente &#227; alternativa reformista do PSOL defendida por Francisco de Oliveira. Se o PSOL aparece hoje como um partido para abrigar os petistas desiludidos que, como Oliveira44, se recusam a enxergar um papel hist&#243;rico independente para a classe tra-balhadora, a perspectiva de um partido oper&#225;rio independente se liga &#227; estrat&#233;gia de reorganizar o conjunto da classe, de oferecer uma alternativa de massas &#227; desilus&#227;o com o PT, e proporcionar aos trabalhadores a condu&#231;&#227;o democr&#225;tica de sua ferramenta pol&#237;tica, ao contr&#225;rio do que foi a desgra&#231;ada hist&#243;ria do PT. Essa &#233; a &#250;nica perspectiva coerente com o peso social do proletariado brasileiro e sua potencialidade para lide-rar a alian&#231;a revolucion&#225;ria com a pequena-burguesia pobre das cidades e com os camponeses, de forma a tirar as classes populares do Brasil de sua prostra&#231;&#227;o. &#201; tam-b&#233;m a &#250;nica resposta ampla capaz de acelerar o processo de forma&#231;&#227;o de uma van-guarda revolucion&#225;ria da classe trabalhadora.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por isso combatemos as teses de &#8220;O Ornitorrinco&#8221;, as quais no momento atual exercem um papel regressivo ao mostrar como estruturalmente impotente a &#250;nica for-&#231;a social capaz, se avan&#231;a em sua independ&#234;ncia pol&#237;tica com rela&#231;&#227;o &#227; burguesia, de hegemonizar o conjunto das classes exploradas. Dizemos abertamente que a &#250;nica alternativa realista &#233; o poder oper&#225;rio, oposto pelo v&#233;rtice &#225;s utopias de Furtado ou Jaguaribe, que tentam obrigar a burguesia brasileira a gastar menos e investir em de-senvolvimento social. N&#227;o h&#225; sa&#237;da por fora da revolu&#231;&#227;o social dirigida pela classe oper&#225;ria, o s&#233;culo XX j&#225; o demonstrou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Inversamente, uma tal perspectiva permite que se descortine todo um novo ho-rizonte de possibilidades para o futuro. Contrariamente a todo tipo de vis&#227;o amargurada, encerramos este artigo retomando a imensa for&#231;a das id&#233;ias de Trotsky (bem como as do revolucion&#225;rio argentino Liborio Justo45) que apontavam claramente o caminho capaz de libertar os povos latino-americanos. Dizia Trotsky:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A Am&#233;rica do Sul e Central s&#243; poder&#227;o romper com o atraso e a escravid&#227;o unindo todos os seus Estados numa poderosa federa&#231;&#227;o. Mas n&#227;o ser&#225; a atrasada burguesia sul-americana, essa sucursal do imperialismo estrangeiro, a chamada a resolver esta tarefa, mas sim o jovem proletariado sul-americano, que dirigir&#225; as massas oprimidas. A consigna que presidir&#225; a luta contra a viol&#234;ncia e as intrigas do imperialismo mundial e contra a sangrenta explora&#231;&#227;o das camarilhas compradoras nativas ser&#225;, portanto: Pelos Estados Unidos Sovi&#233;ticos da Am&#233;rica do Sul e Central.46&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Essa perspectiva, que exige do proletariado brasileiro que assuma uma posi&#231;&#227;o de vanguarda no continente, se afasta ao mesmo tempo de toda concep&#231;&#227;o terceiro-mundista, ao colocar a &#234;nfase no fato de que, mesmo uma federa&#231;&#227;o assim obtida, a partir de triunfos revolucion&#225;rios em pa&#237;ses chave da regi&#227;o, seria apenas uma trincheira para seguir combatendo pela extens&#227;o mundial da revolu&#231;&#227;o socialista. Tal &#233; a nossa bandeira: nenhuma esperan&#231;a na reacion&#225;ria burguesia brasileira, toda confian&#231;a na potencialidade revolucion&#225;ria de nosso proletariado e em seu papel hist&#243;rico.&lt;/p&gt;
&lt;hr class=&#034;spip&#034; /&gt;
&lt;p&gt;NOTAS&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;1 D&#233;cio Saes, Rep&#250;blica do Capital: Capitalismo e processo pol&#237;tico no Brasil. Ed Boitempo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;2 Idem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;3 Cf. S&#233;rgio Buarque de Hollanda , Ra&#237;zes do Brasil, Ed. Cia das Letras.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;4 Cf., por exemplo, a obra de Bol&#237;var Lamounier.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;5 Francisco de Oliveira, Cr&#237;tica &#227; Raz&#227;o Dualista O Ornitorrinco, p. 37. Ed. Boitempo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;6 Idem, p. 39.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;7 Comiss&#227;o Econ&#244;mica para a Am&#233;rica Latina e o Caribe.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;8 Cf. Murray N. Rothband, Introdu&#231;&#227;o e Cap II &#8220;A Escola Austr&#237;aca&#8221; de O Essencial Von Mises, Ed Jos&#233; Olympio/ Instituto Liberal.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;9 Francisco de Oliveira, op. cit., p. 49.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;10 Nota-se, do ponto de vista do sistema econ&#244;mico internacional a disposi&#231;&#227;o da estrutura social brasileira em manter enfaticamente suas rela&#231;&#245;es agr&#237;colas. A sistem&#225;tica exporta&#231;&#227;o de produtos agr&#237;colas at&#233; hoje comprova a assertiva. Ainda hoje na composi&#231;&#227;o da balan&#231;a co-mercial brasileira as commodities cumprem uma fun&#231;&#227;o estrat&#233;gica. Para uma discuss&#227;o sobre como o Brasil se insere na divis&#227;o internacional do com&#233;rcio a partir da agricultura cf. Florestan Fernandes &#8220;Sociedade escravista no Brasil&#8221;, pp. 227, 233 e 235. In: Cole&#231;&#227;o Grandes Cientistas Sociais. Ed &#225;tica. Advertimos que abordamos o problema do &#226;ngulo gen&#233;tico-estrutural, pois ao longo dos anos houve altera&#231;&#245;es e oscila&#231;&#245;es importantes, que entretanto n&#227;o comprometem a estrutura global do sistema.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;11 Francisco de Oliveira, op. cit., p. 129.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;12 No pref&#225;cio da primeira edi&#231;&#227;o de O Capital, Marx afirma sobre o desenvolvimento do capi-talismo ingl&#234;s em compara&#231;&#227;o com outras regi&#245;es da Europa: &#8220;Onde a produ&#231;&#227;o capitalista se implantou plenamente entre n&#243;s, por exemplo, nas f&#225;bricas propriamente ditas, as condi&#231;&#245;es s&#227;o muito piores do que na Inglaterra, pois falta o contrapeso das leis fabris. Em todas as outras esfe-ras, tortura-nos - assim como em todo o resto do continente da Europa ocidental - n&#227;o s&#243; o de-senvolvimento da produ&#231;&#227;o capitalista, mas tamb&#233;m a car&#234;ncia do seu desenvolvimento. Al&#233;m das mis&#233;rias modernas, oprime-nos toda uma s&#233;rie de mis&#233;rias herdadas, decorrentes do fato de continuarem vegetando modos de produ&#231;&#227;o arcaicos e ultrapassados, com o seu s&#233;quito de rela-&#231;&#245;es sociais e pol&#237;ticas anacr&#244;nicas. Somos atormentados n&#227;o s&#243; pelos vivos, como tamb&#233;m pe-los mortos. Le mors saisit le vif&#8221;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;13 Francisco de Oliveira, op. cit., p. 59.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;14 Idem, p.130.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;15 Sobre a rela&#231;&#227;o entre produ&#231;&#227;o e distribui&#231;&#227;o, diz Marx: &#8220;A articula&#231;&#227;o da distribui&#231;&#227;o &#233; intei-ramente determinada pela articula&#231;&#227;o da produ&#231;&#227;o. A pr&#243;pria distribui&#231;&#227;o &#233; um produto da pro-du&#231;&#227;o, n&#227;o s&#243; no que diz respeito ao objeto, podendo apenas ser distribu&#237;do o resultado da produ-&#231;&#227;o, mas tamb&#233;m no que diz respeito &#227; forma, pois o modo preciso de participa&#231;&#227;o na produ&#231;&#227;o determina as formas particulares da distribui&#231;&#227;o, isto &#233;, determina de que forma o produtor participar&#225; na distribui&#231;&#227;o. (...) Na sua concep&#231;&#227;o mais banal, a distribui&#231;&#227;o aparece como distribui&#231;&#227;o dos produtos e assim como que afastada da produ&#231;&#227;o, e, por assim dizer, independente dela. (...) Aqui ressurge novamente o absurdo dos economistas que consideram a produ&#231;&#227;o como uma verdade eterna, enquanto proscrevem a Hist&#243;ria ao dom&#237;nio da distribui&#231;&#227;o.&#8221;, K. Marx apud Jos&#233; Chasin,, &#8220;A &#8216;politiza&#231;&#227;o' da totalidade: oposi&#231;&#227;o e discurso econ&#244;mico&#8221;, A mis&#233;ria Brasileira, Edi&#231;&#245;es Ad Hominem, 2000. No pref&#225;cio ao mesmo livro, a cientista pol&#237;tica L&#237;via Cotrim co-menta nesse mesmo sentido: &#8220;Produ&#231;&#227;o e distribui&#231;&#227;o deixam, assim, de ser tomadas como duas esferas desvinculadas, uma das quais - a produ&#231;&#227;o - seria regida por &#8216;leis naturais', enquanto a outra - a distribui&#231;&#227;o - poderia ser objeto de altera&#231;&#245;es dependentes da vontade, ou da pol&#237;tica. Esta forma inadequada de as apreender vem se mantendo, at&#233; os dias atuais, como apan&#225;gio negativo das oposi&#231;&#245;es, que descartam, assim, a cr&#237;tica &#227; base material da exist&#234;ncia, ao modo pelo qual os homens produzem e reproduzem sua vida, e sustentam a suposi&#231;&#227;o de que seja pos-s&#237;vel acoplar, &#227; estrutura da produ&#231;&#227;o existente, uma pol&#237;tica de distribui&#231;&#227;o de renda, de sorte que a pr&#243;pria renda a ser distribu&#237;da &#233; tomada de modo inteiramente abstrato, tanto no que diz respeito &#227; especificidade dos produtos que a constituem, quanto no que se refere aos crit&#233;rios de sua apropria&#231;&#227;o.&#8221;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;16 N&#227;o &#227; toa esse processo levaria ao ascenso oper&#225;rio de fins dos anos 70 e in&#237;cio dos 80, que se orientou inicialmente pelo questionamento ao arrocho salarial, &#227; super-explora&#231;&#227;o e &#225;s p&#233;ssimas condi&#231;&#245;es de trabalho.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;17 Francisco de Oliveira, op. cit., p. 118 e 119.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;18 A. Brossat, El pensamiento pol&#237;tico del joven Trotsky: en los or&#237;genes de la revoluci&#243;n per-manente. p. 11. Siglo Veintiuno Editores. (tradu&#231;&#227;o nossa).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;19 Cf. Os Direitos do Antivalor: A Economia pol&#237;tica da hegemonia imperfeita, p. 29, 30 e 31. Editora Vozes&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;20 Reivindicando para a elabora&#231;&#227;o da Cepal um estatuto de contribui&#231;&#227;o cient&#237;fica universal, Francisco de Oliveira abre seu ensaio com a seguinte afirma&#231;&#227;o emblem&#225;tica: &#8220;A teoria do sub-desenvolvimento, &#250;nica elabora&#231;&#227;o original alternativa &#227; teoria do crescimento de origem cl&#225;ssica, de Adam Smith e David Ricardo, n&#227;o &#233;, decididamente, uma teoria evolucionista&#8221;. Para Oliveira, como desenvolve no t&#243;pico de abertura &#8220;De Darwin a Ra&#250;l Prebisch e Celso Furtado&#8221;, a inter-preta&#231;&#227;o oferecida pela teoria do subdesenvolvimento seria o &#250;nico empreendimento s&#233;rio no sentido de escapar do etapismo stalinista e do evolucionismo, &#8220;que no fundo s&#227;o a mesma coisa&#8221;. p. 128.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;21 Francisco de Oliveira, op. cit., p. 128.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;22 Cf. Trotsky, Naturaleza y din&#225;mica del capitalismo y la econom&#237;a de transici&#243;n. CEIP &#8220;Le&#243;n Trotsky&#8221;, Buenos Aires, 2000. &lt;a href=&#034;http://www.ceip.org.ar&#034; class=&#034;spip_url spip_out auto&#034; rel=&#034;nofollow external&#034;&gt;www.ceip.org.ar&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;23 Como desenvolvemos em outra mat&#233;ria desta revista, existem pelo menos cinco &#225;reas em que se baseia o dom&#237;nio mundial pelas pot&#234;ncias imperialistas: o monop&#243;lio sobre as novas tecno-logias; sobre o controle dos fluxos financeiros; sobre o acesso aos recursos naturais do planeta; sobre os meios de comunica&#231;&#227;o e sobre os grandes armamentos. Uma conseq&#252;&#234;ncia elementar de n&#227;o assinalar esse conjunto de elementos &#233; o fato de Oliveira n&#227;o tecer nenhum coment&#225;rio sobre a necessidade de lutar contra o pagamento da d&#237;vida externa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;24 Francisco de Oliveira, op. cit., p. 139.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;25 Leon Trotsky. &#8220;A caminho: considera&#231;&#245;es acerca do avan&#231;o da revolu&#231;&#227;o prolet&#225;ria&#8221;. 1919.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;26 Num artigo publicado pela primeira vez em 2000, e reunido em seu livro sobre Celso Furtado, A Navega&#231;&#227;o Venturosa, Francisco de Oliveira exp&#245;e sua posi&#231;&#227;o sobre L&#234;nin, Trotsky e St&#225;lin com respeito &#227; teoria marxista do desenvolvimento capitalista: &#8220;A hegemonia da III Internacional produziu a conhecida &#8216;teoria das etapas', sustentada por St&#225;lin, com o que a capacidade inter-pretativa do marxismo sumiu pelo ralo. Trotsky, mais insistentemente, e L&#234;nin, de forma menos acentuada, colocaram o acento no desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo co-mo sistema, mas a elabora&#231;&#227;o marxista posterior esqueceu-se dessa originalidade e esteve sem-pre subordinada, na teoria e na pr&#225;tica do movimento comunista internacional, ao etapismo de St&#225;lin&#8221;, p. 110.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;27 Na introdu&#231;&#227;o escrita em 1983 para o volume sobre Celso Furtado da Cole&#231;&#227;o Grandes Cien-tistas Sociais, escreve Oliveira: &#8220;No v&#225;cuo da produ&#231;&#227;o marxista, que desde L&#234;nin, com O De-senvolvimento do Capitalismo na R&#250;ssia - rigorosamente um estudo da forma&#231;&#227;o de uma eco-nomia subdesenvolvida -, parou e ficou repetindo velhas arengas, Furtado emerge nos anos 1950, a partir dos estudos da Cepal, inaugurando o que veio a ser chamado &#8220;m&#233;todo hist&#243;rico-estrutural&#8221;. Reunido em A Navega&#231;&#227;o Venturosa, p. 11-12. Ed Boitempo, S&#227;o Paulo, 2003.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;28 Referimo-nos a Ra&#250;l Prebisch, criador da Cepal e, segundo Oliveira, &#8220;mentor daquela brilhante equipe de que Furtado foi um dos mais eminentes membros&#8221;. Idem nota anterior, p. 11.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;29 Sobre o papel de Furtado, cf. op. cit., por exemplo, p. 47, 63-64.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;30 Idem, p. 14.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;31 No pref&#225;cio &#227; Cr&#237;tica &#227; Raz&#227;o Dualista O Ornitorrinco, Schwarz esclarece: &#8220;Francisco de Oli-veira n&#227;o &#233; bolchevique, e a sua id&#233;ia de enfrentamento entre as classes est&#225; menos ligada ao assalto oper&#225;rio ao poder que ao auto-esclarecimento da sociedade nacional, a qual atrav&#233;s de-le supera os preconceitos e toma conhecimento de sua anatomia e possibilidades reais, podendo ent&#227;o dispor de si&#8221;. N&#227;o &#233; de estranhar ent&#227;o que na mesma p&#225;gina (p. 20) Schwarz enumere, como &#8220;melhores aliados&#8221; do soci&#243;logo, Celso Furtado, Jos&#233; Serra e Fernando Henrique Cardoso.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;32 Francisco de Oliveira, Cr&#237;tica &#227; Raz&#227;o Dualista O Ornitorrinco, p. 131-2. Ed Boitempo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;33 Esse papel independente do proletariado &#233; substitu&#237;do pela id&#233;ia de integra&#231;&#227;o nacional. Nas palavras de Roberto Schwarz no referido pref&#225;cio: &#8220;Em lugar do antagonismo assassino entre Ci-viliza&#231;&#227;o e Barb&#225;rie, que v&#234; os pobres como lixo, entrava a id&#233;ia generosa de que o futuro depen-dia de uma milagrosa integra&#231;&#227;o nacional, em que a consci&#234;ncia social-hist&#243;rica levasse de vencida o imediatismo. Uma id&#233;ia que em seu momento deu qualidade transcendente aos es-critos de Celso Furtado, &#225;s vis&#245;es da mis&#233;ria do Cinema Novo, bem como &#227; Teoria da Depend&#234;ncia [de FHC]&#8221;, p. 19. Cabe ressaltar o car&#225;ter irresolutivo da reflex&#227;o de Oliveira, pois da an&#225;lise de que a mis&#233;ria faz parte da totalidade org&#226;nica do desenvolvimento capitalista (e n&#227;o &#233; um mero resqu&#237;cio do passado pr&#233;-capitalista), conclui pela via da &#233;tica e da ajuda aos pobres.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;34 Francisco de Oliveira, op. cit., p. 135-137.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;35 O conceito de &#8220;sociedade p&#243;s-industrial&#8221;, empregado fortemente pela rea&#231;&#227;o ideol&#243;gica p&#243;s-moderna contra o marxismo, se disseminou a partir da obra de Daniel Bell e Alain Touraine.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;36 Francisco de Oliveira, op. cit., p. 147.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;37 Idem, p. 147, nota de rodap&#233;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;38 Le&#243;n Trotsky, &#8220;Os sindicatos na &#233;poca da decad&#234;ncia imperialista&#8221;, Escritos sobre Sindicato, p. 105-6, Ed. Kair&#243;s, S&#227;o Paulo, 1978. Aqui e nas demais refer&#234;ncias ao texto, cotejamos a tradu&#231;&#227;o com diversas edi&#231;&#245;es em espanhol.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;39 Francisco de Oliveira, op. cit., p. 148.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;40 Trotsky, op. cit., p. 104.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;41 Idem, p. 108.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;42 Idem, pp. 108-9.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;43 Segundo a tese defendida por n&#243;s, o tom de decep&#231;&#227;o deixaria transparecer, de maneira n&#227;o muito velada, a frustra&#231;&#227;o de ilus&#245;es cultivadas durante longo tempo acerca de um &#8220;Brasil-po-t&#234;ncia&#8221;. As seguintes palavras de Roberto Schwarz nos parecem fornecer indica&#231;&#245;es nesse sentido, apesar de seu esfor&#231;o para ocultar a quest&#227;o: &#8220;Contudo &#233; poss&#237;vel que, em vers&#227;o sublimada, o seu recorte permane&#231;a tribut&#225;rio do aspecto competitivo dos esfor&#231;os desenvolvimentistas. Por outro lado como n&#227;o seria assim? Num sistema mundial de reprodu&#231;&#227;o das desigualdades, como n&#227;o disputar uma posi&#231;&#227;o melhor, mais pr&#243;xima dos vencedores e menos truncada? (!) Como escapar &#227; posi&#231;&#227;o prejudicada sem tomar assento entre os que prejudicam?&#8221;(!!?). Pref&#225;cio &#227; Cr&#237;tica &#227; Raz&#227;o Dualista O Ornitorrinco, p. 20.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;44 Outros intelectuais o acompanharam em seu apoio ao projeto do PSOL, como Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder, Ricardo Antunes e, em menor medida, Paulo Arantes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;45 No texto &#8220;Argentina y Brasil en la integraci&#243;n continental&#8221;, Liborio Justo afirmava: &#8220;N&#227;o se equivocam os que cr&#234;em que a libera&#231;&#227;o e a integra&#231;&#227;o da Am&#233;rica Latina depende, sobretudo, da conjun&#231;&#227;o e do entendimento argentino-brasileiro... porque os dois pa&#237;ses est&#227;o destinados, mediante a alian&#231;a de seu proletariado, a ser a vanguarda na luta pelo socialismo no continente&#8221;. Buenos Aires, 1983.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;46 Citado no artigo &#8220;O futuro da Am&#233;rica Latina&#8221;, Escritos Latinoamericanos, CEIP &#8220;Leon Trots-ky&#8221;, Buenos Aires, 2000. &lt;a href=&#034;http://www.ceip.org.ar&#034; class=&#034;spip_url spip_out auto&#034; rel=&#034;nofollow external&#034;&gt;www.ceip.org.ar&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;
		
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